Os caminhos que me levam a Roma

Tenho grande simpatia por Roma, de Alfonso Cuarón. Demorei para descobrir por que o filme, que se passa no México, recebeu o nome da capital da Itália. Segui, inclusive, uma pista falsa embutida na história. A explicação é de uma simplicidade escondida à primeira vista. Que tem a ver com destinos coletivos. Embora sejamos convidados a acompanhar uma narrativa individual. Em destaque num pano de fundo que se abre em camadas panorâmicas. Generosas em suas inúmeras contradições.

Um dos elementos de empatia é a nacionalidade equatoriana do diretor afamado. Gravidade, com Sandra Bullock, é sempre lembrado quando falamos de Alfonso Cuarón. Como seus amigos cineastas, Guilhermo del Toro e Alejandro Gonzáles Inãrritu, ele tem uma queda por movimentos prodigiosos de câmera sobre enredos que driblam (ou tentam driblar, pelo menos) a banalidade com um golpe de mestre.

Percebe-se que o chavão é mais um amuleto a ser usado como um souvenir do que um penduricalho que se evita com a pose rancorosa do esnobismo. Tudo depende, afinal, do ponto de vista que se projeta na tela. Ou, no caso de Roma, das cenas conjuradas por streaming, principalmente.

Confessar meu desconhecimento completo pelo tipo de cinema que é produzido no Equador serve para ressaltar ainda mais o fato de que Alfonso Cuarón desenvolveu uma carreira brilhante a partir da periferia mais remota. Não é pouca coisa ser indicado ao Oscar por um trabalho realizado logo depois de um título premiado com o Oscar.

Isto revela que Alfonso Cuarón é capaz de atrair multidões para seus filmes e, dessa forma, recompensar o investimento dos financiadores. Sem abrir mão, necessariamente, de um objetivo autoral. Em que pese, no meio do caminho, a obrigação mais técnica do que artística de entregar um episódio de Harry Potter embrulhado para o sucesso.

Talvez para amenizar os efeitos mirabolantes de Gravidade, Alfonso Cuarón, em Roma, colocou seu arcabouço invejável de maneiras possíveis de enquadrar uma cena e de sugerir conclusões na base do cotidiano de um país, em muitas mazelas e rupturas, parecido com o nosso. Enfatizando o que há de singelo e traumático numa personagem secundária, taciturna e deslocada, nos arredores de uma sociedade em conflito, ao mesmo tempo acostumada com suas acomodações precárias e desconfortáveis.

Que Donald Trump procure se afastar do reflexo que lhe causa tamanha repulsa com a construção paralisante de um muro tão canhestro é um incentivo político forte o bastante para justificar, em parte, a boa acolhida de Hollywood. Evidente que não se trata de pegar a dimensão humana de uma obra vasta e complexa e forçar o ajuste em apenas um dos seus quadros. Ainda que não seja o menos importante.

Não bastasse assumir de peito aberto a condição de um ponto fora da curva, chegando a bater na mesa pela correção de suas legendas, Alfonso Cuarón filmou em preto e branco e sem a presença de celebridades. Aprendam, crianças, a rasgar o manual depauperado do sucesso a qualquer preço e a lutar por algo tão fora de moda como a honestidade intelectual, emocional e profissional.

Mesmo que não fosse tão bem sucedido, Roma continuaria sendo digno de aplauso.

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Desde que o samba é samba

A música liga Santo Amaro a Xerém. O samba é a via que se percorre entre os pontos. Maria Bethânia e Zeca Pagodinho festejam o encontro no palco. Não, infelizmente, em Goiânia. Perdemos. Mas podemos ver e ouvir o show no DVD e CD recém lançados. Eles oferecem 34 faixas para os comensais. É um banquete para os fãs. Que recebem o que vão procurar. Talento, profissionalismo, entrega, paixão, alegria e grandes sucessos.

A primeira metade é quase toda dedicada ao Zeca. A introdução estabelece a parceria. As vozes se aproximam em suas diferenças. A disciplina de Bethânia é algo digno de nota. Ela se mantém soberana dona do seu potencial. Não que seja indisciplinado, Zeca é mais descontraído em suas abordagens. A aura do malandro, aquele da boemia, é forte no seu perfil. O excesso de madrugada se reflete na dicção, na clareza, na emissão.

E, claro, na disposição em reconhecer os sambas que vão tocar a preferência do grande público. A sucessão de títulos facilmente reconhecíveis é um engenho dos bambas. Inclusive, os que zombam de suas mazelas. Maneiras e Não Sou Mais Disso, por exemplo. Não há samba gravado pelo Zeca que não ecoe na lembrança. Ele defende seu repertório com franca gratidão. Abre o diálogo com a plateia, que responde com ânimo.

O sincretismo também é um elemento em paralelo com Bethânia. O cristianismo anda de mãos dadas com as entidades naturais. As bênçãos dos céus se espalham no tablado, onde os músicos se dividem e se complementam para atender as diretrizes das canções. Não por acaso, a percussão ressoa com personalidade febril. O que chama para a dança, chama para a reza e para a luta. Hoje, parece questão de honra preservar o que é belo.

A origem do samba é uma questão menos importante, no espetáculo, do que a união dos batuques e dos pontos que mexem com os pés e com as cadeiras. Não se trata, afinal, quando se fala de Bethânia, de uma falsa baiana. Ela expande seu carisma na segunda metade do show. Imagino como deve ser difícil conciliar passado e presente em uma lista restrita de presentes desembrulhados no tempo limitado de uma temporada. Ave!

Menos mal que as temporadas são desencadeadas em uma sequência que propicia o inenarrável prazer de incontáveis lembranças e novidades supimpas. Caetano Veloso, o irmão compositor, providenciou Amaro a Xerém, que batiza toda a parafernália. Quem mais poderia emendar Negue a Ronda com a emoção que provoca delírios e calafrios? O sempre ouvido, em Bethânia, ganha a dimensão do que se ouve de novo sem cansar.

A poesia que está presente nos versos que povoam melodias extrapola para um recital de autores de outras paragens e paisagens. A viagem de Bethânia interdita, na verdade, o tempo, causando a sensação de que jamais sairemos desse vácuo de estética luminosa. Da calmaria da praça do interior para a metrópole repleta de assombros, tudo é destreza. Não bastassem os cuidados com os detalhes de uma cena que ilude, mas não ludibria.

O apogeu de Zeca e Bethânia não deixaria de atravessar a avenida de enredos escolares. O Carnaval da pele que sensualiza sob o sol exalta a nostalgia de bailes românticos debaixo da lua. Mestres são reverenciados em coro popular. Lembramos que o Brasil é de festa, apesar de sacudidas que têm pouco a ver com nosso imaginário dionisíaco. Mas a possibilidade do fuzuê surge estampada em nosso destino incomparável.

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No fundo do quintal da escola

O livro Nas Trilhas do Rock, organizado por Rainer Gonçalves Sousa, mestre em História pela UFG, une pontas antagônicas: a produção acadêmica, científica e rigorosa e bandas de rock, múltiplas e desordenadas. É a tentativa de uma visão sistematizada do que, por definição, não é muito ajuizado. São 10 ensaios, na maioria, de professores de História e Sociologia. A alta intelectualidade manifesta apreço pela baixa cultura.

É melhor do que desprezo. Embora, na contramão do preconceito, vertentes roqueiras levantem brigadas de menosprezo à erudição acadêmica. As linguagens são diferentes, convenhamos. Mas convergem, eventualmente, em apropriações de estilos que acabam sendo carimbados de movimentos elitistas. Faculdades de Arte são ninhos de dândis.

O fato é que muitos artistas utilizam o conhecimento adquirido nos bancos escolares em trabalhos inovadores e muitos pesquisadores se debruçam em cima das ruas, teorizando a respeito de movimentos de massa, como o rock. A troca não é tão profícua como desejam os sensatos, nem músicos nem estudiosos, porém ouvintes e leitores atentos.

O rock, em seu reflexo no espelho da rebeldia, exibe mais intuição, energia e feeling do que cérebro ou capacidade de ver suas impressões transformadas em detalhes coerentes. Devoradores de tratados preferem temas sérios, de respeitabilidade crítica, na escalada profissional da graduação. Nas Trilhas do Rock, assim, é feito uma pausa para o futebol.

Se crítico é aquele que, no diálogo com autores ou objetos de análise, aponta rumos inesperados, também é o observador privilegiado, com ferramentas de comparação, num plano de distanciamento superior, com uma frieza em contraste com a luz da criação original e autônoma. No atropelo do caos, a invenção atinge sensibilidades dispostas a elucubrar de maneiras mais figurativas e simbólicas do que em coordenadas impecáveis.

O livro, pois, organiza a bagunça em dois blocos. Seja no subtítulo, Experimentalismo e Mercadoria Musical. Seja na separação dos ensaios em Rock Internacional e Nacional. No primeiro caso, há uma correlação entre quem força a barra para impor sua vontade e os mecanismos de enquadramento na massificação. No segundo, há uma lente de contato entre as comunidades de origem e a filial tão, tão distante e presa ao passado.

Sem revirar o enigma das abordagens sobre vanguarda, Beatles, Led Zeppelin, Black Sabbath, Mutantes, punks e a geração dos anos 1980, O Caminho das Pedras, do doutor Cleber Sberni Junior chamou demais minha atenção. Trata da primeira edição brasileira da revista Rolling Stone, editada por Luiz Carlos Maciel e Ezequiel Neves em 1970.

Fica bem claro como o discurso dos historiadores soa pomposo e artificial. Ao lado da fala coloquial, engraçada e envelhecida, de jornalistas que discorreram sobre bandas de rock com leveza e despretensão. Eles podem servir de lição para um segundo volume. Doutores, relaxem um pouquinho e avancem nessa trilha sem tanto peso na mochila.

As tramas de Nas Trilhas do Rock não foram feitas para serem defendidas em bancas de mestrado. São convites para passeios peripatéticos, onde se conversa animadamente sobre assuntos que nos dão imenso prazer. Sem deixar a inteligência do lado de fora.

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O Filme do Queen

Não chamo Bohemian Rhapsody de Bohemian Rhapsody. Chamo Bohemian Rhapsody de O Filme do Queen. Mais fácil, não é? Demoramos para ver o dito cujo. De quem mesmo? Bryan Singer ou Dexter Fletcher? Como saber onde um começa e o outro acaba? O cartaz incomoda um pouco. Aquelas cores e a pose do Freddie Mercury lembram a cena d’O Rei Leão, quando o babuíno Rafiki apresenta Simba na pedra.

É fácil ser atraído pela história. Também é fácil ver o astro do rock como um anjo caído. O arco da redenção está presente. Fácil, fácil. Garoto pobre e deslocado conhece garotos pobres e deslocados. A música é o caminho para a fama. A fama é o caminho para as drogas. O excesso leva à solidão. O amor leva ao arrependimento. Mas paga-se com a vida a ousadia da promiscuidade. O vírus da Aids abateu muitos talentos durante o voo.

Como no filme do Cazuza, O Tempo Não Para, de Sandra Werneck e Walter Carvalho, o vocalista da banda é o maluco de plantão. Os músicos são preservados das atitudes suspeitas. N’O Filme do Queen, Brian May, John Deacon e Roger Taylor são pudicos e conservadores. Freddie representa o desregramento. Não que não tenha sido assim na chamada vida real. Mas por que só Freddie no papel de quem foi além das medidas?

Claro, o rapaz é o centro das atenções. Tudo gira ao redor do seu umbigo. E, aqui, temos a interpretação de Rami Malek. Dentro das convenções hollywoodiana dos enredos de celebridades. Haja vista Jim Morrison, Ray Charles, Johnny Cash. Vamos dar uma folga à palavra camaleão, por favor. Malek aproveitou a oportunidade da sua vida e valorizou seu passe. Superou o risco do fiasco. O que não me impede de considerá-lo inadequado.

Ele não tem, na minha opinião, o physique du rôle. Não acreditei no Freddie de Malek. Olho para ele e vejo um ator em movimento. Não vejo um cantor arrebatado carregando uma banda no palco. Não vejo uma prima-dona. Vejo um trabalho de corpo. A força do olhar que se perde na mandíbula. Uma caracterização um tanto canhestra em relação aos parceiros de jornada. Malek é franzino perto da vibração que irradiava do seu modelo.

Sacha Baron Cohen teria feito algo melhor? Jamais saberemos. Difícil negar que Sacha é dono de uma personalidade que poderia entregar ao personagem de Freddie o perigo da revolta contra o status quo. Por que Brian May, o original, vetou o nome de Sacha? Mistério absoluto. Posso conjecturar que, na relação, havia a iminência irresponsável de um salto para fora do quadrado. Que poderia, inclusive, arranhar o perfil do retratado.

Malek atendeu os desígnios da disciplina e se manteve na estrada reta. Não contestou a estatura do poderoso controverso. O mergulho nos tormentos, a sexualidade dúbia e os relacionamento homoafetivos são igualmente superficiais. O que um diretor com um pouco mais de coragem faria com esse potencial de conflitos? Evidente que a troca de guarda prejudicou o andamento da história. Menos mal que os decibéis falam bem alto.

Mas nem sequer a reprodução dos espetáculos me deixou emocionado. A lembrança do Live Aid, em Wembley, deixa a desejar na carpintaria dos detalhes. Há quem pense o contrário. Tudo foi minuciosamente colocado em seu lugar, dos objetos à marcação cenográfica. Tudo bem. Para mim, faltou o que Freddie prezava: alma. Uma pena que O Filme do Queen termine sendo aquele em que os gays são reconhecidos pelos bigodes.

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O eterno retorno do mala

Eu me lembro do tio da Sukita. Não tem como não citar a marca do refrigerante. As grandes campanhas publicitárias, através do exercício da criatividade, deixam os nomes dos produtos gravados na cabeça dos consumidores. Quando a campanha é realmente boa, como essa, ela reverbera um comentário social além da primeira intenção, que é acender o desejo da posse ou do usufruto. O tio da Sukita realizou a tarefa há 20 anos.

Não importa se a meta planejada pelo departamento de vendas foi batida. O personagem ganhou vida própria. Ele é o estereótipo dos tiozões pelo Brasil. Com o exagero de todo estereótipo. Um comercial de TV condensa a mensagem que almeja transmitir em apenas 30 segundos. A sutileza fica um pouco prejudicada nessa minúscula duração. O slogan tem que ser direto e reto, sem margem para dúvidas ou reflexões sofisticadas.

Os papéis são bem definidos e as situações, resolvidas sem hesitações. Pois bem, nesse quadro, o tio da Sukita encontra uma adolescente no elevador. Papo vai, papo vem, ele entra naquela de conquistar a menina, que o descarta com uma estocada certeira e gentil. A garota, a princípio inocente, é simpática e suave. O tiozão entende o recado e fica na dele. Não força a abordagem. Naufraga redondamente na frustração. O efeito é cômico.

Fica exposta a pretensão do coroa que se achava um galã de novela. O ridículo pendão machista que prega que todo homem tem que dar em cima de toda mulher. Como se fosse uma estúpida questão de honra. A virilidade como instrumento de afirmação. Não interessa se estamos condenados à humilhação do fracasso. A receptividade deu origem a uma pequena série. Mudaram os ambientes, mas as circunstâncias eram as mesmas.

O homem maduro, que não sabíamos se era casado ou se era pai, tentando se aproximar de uma garota que tinha idade para ser sua filha, sem conseguir. O tempo passou, a água correu debaixo da ponte, as transformações viraram o mundo de pernas pro ar e o tio da Sukita voltou ao começo. De novo no elevador, de novo diante de uma adolescente, parecida com a Lolita anterior. Certas coisas permanecem exatamente como são.

Este homem envelhecido começa a ser elogiado pela sua modernidade. Ele anda de bicicleta, usa tênis de skatista, toma guaraná (poderia ser café) em capsulas. Antenado, deve estar nas redes sociais e tirar selfies. Entrando na terceira idade, procura aparentar que é menos idoso para os que estão à sua volta. Os elogios despertam o velho lobo do mar adormecido. Ele comete o erro de convidar a menina para visitar seu apartamento.

Será que é pedófilo? O tio da Sukita leva mais um fora, em apenas uma frase. Desta vez, a jovem é mais incisiva que suave. A vítima do ataque no passado quase não percebe as investidas. Era distraída, para não dizer ingênua. A vítima atual não faz papel de vítima. Ela sabe exatamente com quem está falando. Ela reconhece o espaço da intimidade que lhe cabe. É uma jovem consciente da sua imensa capacidade de dizer não e ser ouvida.

Ela refuta a imbecilidade da insistência. Em defesa do tio, vamos afirmar que ele é um reflexo que deve ser ignorado. Principalmente, se você já passou dos 40. Poucas facetas são mais abomináveis no mundo contemporâneo do que o sátiro babão. O carisma do ator, no entanto, que revive o personagem emblemático, não leva o tio da Sukita para o terreno da cretinice, propriamente. Antes, ele não passa de um infeliz equivocado.

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Fragmentos de um encontro

Sábado, deu tempo de ir ao sebo. É legal dar um pulinho de uma hora por lá. Conheço os caras. Eles me conhecem. Fico à vontade. Ninguém pega no meu pé. Ninguém me oferece coisas. Mexo em todas as prateleiras. Saio de mãos vazias. Não tem problema. Quando levo discos, livros, eles me dão um prazo de pagamento. Sem limite. Claro, já troquei, vendi, comprei uma infinidade de títulos. A relação é de confiança absoluta.

As tarefas não permitem que eu vá ao sebo com a frequência desejada. Outros afazeres pedem atenção. São urgentes, necessários, indispensáveis. Paciência. No sábado, deu tempo. Beleza. Mas, não sei por que, não consegui focar a capa dos livros. Precisando trocar os óculos? Sim. O olhar cansado de tanto computador? Sim, também. Raios. As telas cada vez menores. Apesar dos celulares cada vez maiores. Que bela contradição.

Lembro de um anúncio de cinema nos anos 80. O correto é escrever anos 1980. Identificar a década. Enfim. Projetavam cenas de O Último Imperador, de Bernardo Bertolucci, morto em novembro. Grandioso. Colorido. Cheio de detalhes. Dois homens entravam em cena e começavam a pintar tudo de preto. O filme perdia definição. Até que a tela ficava do tamanho de uma TV. De tubo. Nem era dessas enormes, atuais.

Pois bem, repetissem o anúncio, para incentivar o espectador às salas de exibição, a pintura ficaria do tamanho de um smartphone. Minúscula. Já que estava indisposto para o crivo das lombadas, resolvi que, em vez de escolher um livro, seria escolhido por um deles. Simples assim. Decidi ficar de bobeira. Sem correr atrás de nada. Se algo do meu interesse estivesse por ali, acabaria se manifestando. De um jeito ou de outro. Dane-se.

Fui dar uma sapeada nos CDs. Varri as fileiras de ponta a ponta. Até ficar com os dedos sujos. Característica dos sebos. Ouvi um bocado. Optei por uma coletânea da Nina Simone. Recuperei o Afrociberdelia. Aquele, da Nação Zumbi, que foge todas as vezes, por ser nômade. E peguei um outro, que vou acabar trocando por outro. Não bateu. Alguém recomenda o No Way Out, de Puff Daddy & Family (leia-se Notorius B.I.G.)?

Fiquei de olho no The Billie Holiday Songbook, do Terence Blanchard. Mais pela voz maravilhosa da Jeanie Bryson, que não conheço. Ok, tudo em riba. De repente, rá! Virei para a área de biografias. Nunca me preocupo com biografias. Não faz parte da minha lista de curiosidades. Então, aconteceu. Frantumaglia (sim, o nome é esse), da Elena Ferrante, pulou em cima de mim. Uma edição novinha, de 2017, dando sopa. Sorte?

Subtítulo: Os Caminhos de uma Escritora. São cartas, textos não literários, entrevistas à distância. Elena é reclusa. Não gosta de aparecer. Tanto que desconfia-se que o nome seja um pseudônimo. Reconhecido à pampa. Li o quarteto napolitano, dela, que começa com A Amiga Genial. São belos e recomendáveis. Viraram uma série da HBO. Dirigida por Saverio Constanzo. Batizado em inglês, My Brilliant Friend. Não precisava.

Tenho visto. Gosto, no geral. Ambientação notável. Figurinos minuciosos. Fidelidade ao romance. Margherita Mazzucco, a Elena adolescente, é inexpressiva e coloca muito a perder. Vá lá. É uma concessão. Não acompanho séries. Na TV, vejo filmes, alguns jogos de futebol, um pouco de telejornal e shows, musicais. O interessante é que funcionou de novo. Um livro cruzou meu caminho. E, agora, está morando lá em casa.

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Pensamento ruim de cabeça

A imagem do estudante agredido por um policial em Goiânia, estampada na capa do CD A Dança dos Não Famosos, do Mundo Livre S/A, lançado pela Monstro Discos, revela um ponto de vista social, uma tomada de posição política e a manipulação da estética da violência. O nome do disco é uma referência ao quadro de um programa dominical de TV, para a distinta família brasileira, do qual Fred Zero Quatro, ideólogo da banda, jamais participará por um entendimento mútuo.

O programa está na grade da emissora cujo fundador, beneficiado pelo regime militar, é o símbolo de tudo o que deve ser repudiado por aqueles que estão do lado errado do cassetete, usando a cabeça como escudo, tentando mudar o mundo com palavras de ordem ou atacando o patrimônio privado.

Como artefato de protesto contra o estado das coisas, tudo o que está aí tal como se encontra, com alvos definidos e arsenal teórico de imaculada procedência, o obstáculo que se levanta no caminho de A Dança dos Não Famosos (os explorados pelos profissionais das plataformas) é menos o panfletarismo das bandeiras desfraldadas e mais o anacronismo da perene luta do santo guerreiro versus o dragão da maldade.

A ousadia inerente à coragem de mandar às favas qualquer intenção de se dar bem vendendo discos, recheados de um discurso inflamado e avesso às corporações que um dia dominaram a produção artística brasileira, que possibilitaram as gravações de Raul Seixas, Taiguara, César Sampaio, Geraldo Vandré entre outros, é o estima soberano da independência, alternativa para quem não quer transar de rato num buraco do mesmo.

O Mundo Livre S/A provavelmente acredita não em mudar o sistema por dentro, mas em corromper o status quo montando guerrilhas sonoras. A contramão do processo é pregar para convertidos no imenso deserto das certezas inabaláveis, que não problematizam complexidades, antes reforçam estereótipos. Por outro lado, quantos andam se dando ao trabalho de serem assertivos, francos e diretos no equívoco dos sentimentos que valem quanto pesam na balança da incorruptibilidade?

Por outro lado ainda, o panorama temático, em que pese o fato de o disco ser o retrato das opiniões de Fred Zero Quatro diante de um quadro específico, segundo o evangelho escolhido por ele, demanda a controvérsia de se tornar o capítulo de uma obra, por certo coerente no todo, amarrado a circunstâncias peculiares e isoladas no túnel do tempo.

O Barão Vermelho fez sucesso, uma vez, com um rock radiofônico chamado Pense e Dance. Não são poucos os que procuram resolver esta equação num grau mínimo de competência e originalidade. O Mundo Livre S/A contribui para a solução do enigma com o fracasso de uma tentativa que expõe a chatice de levar o corpo para dançar, com uma voz chamando a razão na direção do compromisso de uma barricada.

Houve mais choque de intenções do que uma fusão bem sucedida.

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