As canções de Sérgio Pererê são abraços carinhosos

Ninguém se chama Pererê por acaso. O personagem do folclore tem seu lugar no imaginário infantil. Sempre de gorro vermelho e cachimbo, pulando em uma perna só, o Saci-Pererê diverte-se aprontando travessuras. O cantor mineiro Sérgio Pererê transmite alegria em suas composições. Ele está com o pé nessa estrada, gravando um disco atrás do outro, desde o começo dos anos 2000. Conheci o trabalho dele por meio do seu último lançamento, Canções de Bolso. Gostei a ponto de não parar de ouvir. Para quem ainda não teve a sorte e o prazer de encontrar ou de ser tocado pela música do Sérgio, cabe informar que ele é negro. Ninguém se chama Pererê por acaso. A negritude está diretamente relacionada às influências africanas na sonoridade, no canto, na religiosidade do artista. Em sua dedicação a tradições que remontam à ancestralidade, sem deixar de pertencer ao seu tempo e ao seu lugar, em leituras contemporâneas de sonhos e dilemas que atravessam mares e continentes. Sérgio Pererê reflete no manuseio do seu artesanato as vibrações do passado, presentes em alegrias de quintal e nas dores acumuladas das gerações, na tentativa de respostas, soluções ou novas propostas em novas encruzilhadas. Tudo a partir da sua gênese, da sua formação, das suas preferências estéticas e existenciais. Tudo registrado em álbuns que se multiplicam nos assuntos e nas abordagens, da alegria simples à postura política, costurando as experiências da vida. Canções de Bolso veio à luz na pandemia do coronavírus, fala muito sobre os afetos e tem a ver com a sensação do abraço e do acolhimento. Um sinal de luz e de esperança no momento em que a realidade parece ter sido contaminada pelo desespero. Pode ser que o disco não tenha sido concebido com esta finalidade, no quadro que se apresenta. O que reforça a sensibilidade do Sérgio Pererê, que vislumbrou uma situação, nas palavras do Lenine, que pedia um pouco mais de calma, um pouco mais de paciência e um pouco mais de alma. Não por acaso, Oração do Perdão abre Canções de Bolso com a respiração do Sérgio Pererê. O perdão, aqui, é para si mesmo. Um olhar carinhoso sobre a jornada percorrida. Se nem tudo deu certo, nem tudo deu errado. Refazendo a Costura é uma continuação coerente. A consciência dos passos, incluindo os tropeços, serve de base para os desafios que estão por vir. Fé Brasileira elege a fé na sua amplitude como guia que abre os caminhos, sem se ater a uma única manifestação que traz a certeza inelutável do divino. Flor do Haiti busca a transcendência em cada esquina, como se o cosmo fosse palpável nos encontros fortuitos. O Haiti representa o puro despojamento. Como despojado é Meu Jardim, em dueto com Mayí. A procura do refúgio no interior do seu interior, como disse Vander Lee, em contraponto (mais uma vez) ao mundo que vinha numa velocidade louca. A candura de Canção de Despedida soa como lembrança de momentos que foram bons. Desintoxicação entra em uma atmosfera tuaregue para dividir a cura de uma aversão, com uma pitada de budismo nas entrelinhas. Aqui ou Acolá, para Sérgio Pererê, é o mesmo lugar no coração de quem confia, se joga, se entrega, se deixa levar. Andar com fé eu vou que a fé não costuma falhar, alardeava Gilberto Gil. Why?, em dueto com Play, brinca com o sotaque mineiro, entremeado pelo Uai, com uma dose grande de ternura. Herança de Vovô cultiva a árvore genealógica da família com o adubo da saudade e do respeito. Tempo de Viver é uma visão da natureza como um organismo em transformação, onde não cabe o inanimado. Na Tamboli encerra Canções de Bolso com um dialeto esfuziante que leva o ouvinte ao universo colorido e cativante de Sérgio Pererê.

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Estou sonhando ou ouvindo Arthur e Lívia Nestrovski?

As pessoas, não todas, mas uma parte boa delas, que gostam de música popular brasileira costumam reclamar que a dona MPB perdeu o rebolado faz um tempo já. Eu acho que elas estão certas em boa parte, mas não em toda parte. Esse tipo de reclamação significa tanto a percepção de que deixamos de ouvir canções brasileiras de qualidade no rádio, e bota uma discussão problemática à beça em torno dessa qualidade aí, quanto uma dose bem caprichada de preguiça mesmo. É como se a gente ficasse preso a uma noção de qualidade do passado recente, e todos os nomes estão disponíveis para quem quiser citá-los com a boca cheia de prazeres, e deixássemos de lado a obrigação da procura, da pesquisa e da audição. Porque a programação das emissoras mudou, os discos praticamente sumiram e as plataformas servem mais alternativas do que somos capazes de digerir. O jeito de ouvir música também deu uma reviravolta que levantou poeira. Quem fica uma hora sentado com a tarefa exclusiva de prestar atenção nas faixas de um álbum? Sem nem um encartezinho com fotos e textos para distrair os olhos? Sim, temos todas as fichas do mercado para colocar na mesa. As questões do sucesso, da popularidade e da visibilidade nas redes sociais. Não faltam incentivos para pular de galho em galho e simplesmente continuar reclamando que não existe remédio para a decadência da música brasileira, esta moribunda. Então encontramos Sarabanda pelo caminho. O segundo trabalho conjunto do violonista Arthur Nestrovski com a filha, a cantora Lívia Nestrovski, desmonta esse arcabouço com um sopro. Essa história de apocalipse do gosto vai ter que esperar um pouco. O primeiro disco deles, Pós Você e Eu, de 2016, tem a mesma simplicidade e candura. Existe algo mais antigo do que voz e violão? Não esquenta, a pergunta é retórica. Nem me refiro ao prato requentado do famigerado projeto acústico, que assombrou tantos candidatos à exumação. Não é o caso. A formação respeita as imposições da pandemia, reduzindo ao máximo o intercâmbio entre os artistas, sem diminuir um centímetro sequer as exigências da execução irretocável, do repertório às escolhas da interpretação, passando pela capa do álbum. Um mergulhador em pleno voo, que significa, entre outras coisas, o momento mais arriscado de um salto, enquanto ele ainda se encontra no vazio, contando apenas com as possibilidades do próprio impulso, antes do arremate final. O minimalismo, em Sarabanda, é resultado da extremada erudição. Começando pelo título e referências de compositores que não frequentam o imaginário da canção popular brasileira. A não ser por meio de compositores de canções populares, lembrados em Sarabanda, que possuíam uma cultura abrangente, numa época em que o Brasil podia sonhar com a imersão de sua música no cânone internacional requintado. O que leva a pensar que Arthur e Lívia Nestrovski gravaram um disco fora do seu tempo. Seria Sarabanda anacrônico? Acho que, pelo contrário, é a retomada de uma linha evolutiva que se perdeu no labirinto histórico da imbecilidade plastificada. Tudo contra isso tudo que está aí por não permitir que títulos como Sarabanda tenham a oportunidade de serem devidamente valorizados. O esforço em encontrar seu público enfrenta, assim, uma penalidade de Sísifo. Felizmente, a caducidade estética não afugenta o talento, que encontra o pensamento no cultivo das suas peculiaridades. E ambos nos oferecem um alento redentor. Ouvir Sarabanda é respirar uma atmosfera de sonho. Mesmo que, ao redor, sopre a tempestade e o pesadelo nos imponha suas inúmeras e temerosas restrições.

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Os dinossauros púrpuras continuam sobre a Terra

Deep Purple é uma das bandas que mais ouvi na vida. Junto com Led Zeppelin e Black Sabbath. O que sugere a definição de um tipo de perfil. Mas cuidado com a facilidade dos estereótipos. Eles estão aí exatamente para nos passar a perna. Não dá pra falar em Deep Purple sem uma referência, mesmo que distante, aos seus baluartes e fundadores. O período da banda que mais ouvi contava com a genialidade de Ritchie Blackmore e Jon Lord. A ausência de ambos será sempre um elemento para discussões intermináveis. Assim como a preferência por esse ou aquele vocalista ou por esse ou aquele baixista. Algumas decisões ganharam, com o tempo, a fundamentação de um ponto pacífico. A presença de Steve Morse foi solidificada e não sofre mais nenhuma contestação. A participação de Don Airey tem a simpatia dos fãs. O currículo dele é irretocável. A combinação de Ian Gillan, Ian Paice e Roger Glover soa definitivamente clássica. Deep Purple se parece hoje com um vinho de excelente qualidade. Tanto remete ao passado glorioso quanto inebria no momento atual. A banda honra suas conquistas, sem dúvida e com todo o direito. Ao mesmo tempo em que apresenta um material novo que fica em pé na extensão da sua conjuntura. É uma façanha de veteranos que não desistiram diante das adversidades. Embora com o intervalo de quase uma década entre a aventura solitária com Tommy Bolin e a retomada com um disco de inéditas, como se fossem perfeitos estranhos. A capa de Whoosh!, o lançamento dos velhinhos na pandemia, querendo ou não, é bastante sugestiva. Um astronauta em processo de desintegração no deserto, que deve ser a paisagem de outro planeta. Como se estivéssemos perdendo a consistência durante uma quarentena que parece não ter fim, apesar de todo o isolamento, de todos os cuidados e de toda a proteção. Sinal dos tempos. Como é um sinal do tempo deles dividir o disco ao meio, com seis faixas de cada lado e um bônus. Além de um DVD com um show gravado na Hellfest em 2017. Sem contar a turnê de despedida, The Long Goodbye Tour, anunciada com o disco anterior, InFinite. Lá se vão 50 anos de carreira, senhoras e senhores, desde o finalzinho dos anos 1960. Natural que eles queiram descansar, que queiram se dedicar a projetos diferentes. Por enquanto, dão mais um passo com dignidade. Sem jogar por terra os esforços dos envolvidos. Claro, imunes às comparações com a fase áurea, até a metade dos anos 1970. Incluindo as passagens de David Coverdale e Glenn Hughes. Gillan mantém o timbre característico, longe dos agudos lancinantes. Paice garante as levadas sem arroubos. Glover, o que menos aparece, é o timoneiro invisível da nau. As intervenções de Morse, cirúrgicas, exaltam o virtuoso que não tem a vaidade à flor da pele. Airey, à parte o peso e a envergadura de Lord, exibe um desfile de teclados digno de nota. O diálogo dele com Morse em Nothing at All é uma pista do que poderiam ter realizado com mais afinco. O solo de Airey revela a influência erudita da sua formação. Não por acaso, a faixa é uma das mais longas. Perde para The Long Way Round e Man Alive, propensas ao rock progressivo, com mais de cinco minutos. No geral, o quinteto está enxuto como nunca, apostando nos refrões com as vozes dobradas. O exibicionismo talvez fique restrito aos palcos, ambiente em que eles podem se entregar aos longos solos e às viagens instrumentais. Remission Possible e And the Address servem como senhas para a decolagem. Resta torcer para que o palco não se torne, para o Deep Purple, uma simples miragem do passado. Ou que o produtor Bob Ezrin os convença a voltar para o estúdio.

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O legado do Tyrannosaurus Rex está preservado

Angelheaded Hipster: The Songs of Marc Bolan & T.Rex reúne 25 artistas de várias procedências. Eu poderia passar o resto da vida ouvindo Cosmic Dancer na interpretação do Nick Cave. É a segunda faixa da coletânea. Impossível saber por que colocaram Children of the Revolution, com a Kesha, na abertura. Ela passa despercebida. Cosmic Dancer respira com emoção. Tem um arranjo de cordas magnífico no cumprimento do seu papel. A simplicidade reina junto com a invenção. A impressão é profunda. Kesha, esforçada, não deixa marcas. A veterana Joan Jett puxa Jeepster para a brasa da sua banda, Blackhearts, com propriedade e categoria, sem forçar a barra. Devendra Banhart aproveita o clima psicodélico de Scenescof para desenhar sua assinatura viajandona. Lucinda Williams, provando que o álbum tem perfis de todos os tipos, aparece deslocada em Life’s a Gas. Embora não se abstenha de uma defesa embriagada. Em outra guinada, Peaches traz a eletrônica e uma percussão carregada para Solid Gold, Easy Action. BORNS, cujo O é o sinal do conjunto vazio, navega no lirismo em Dawn Storm, com a delicadeza vaporosa de um conto de fadas. Beth Orton, que eu não ouvia há muito tempo, é uma surpresa agradável em Hippy Gumbo, como se fosse corista de um espetáculo um tanto decrépito. Uma guitarra cortante atravessa a atmosfera causando estragos. King Khan engana com uma cítara desvirtuada na introdução de I Love to Boogie, passando para o lado chacoalhante da energia crua. Gaby Moreno, da Guatemala, transforma Beltane Walk em algo particular com detalhes suaves em aquarela. Neste momento, de acordo com o release original, U2 e Elton John entrariam com Bang a Gong (Get it On). A faixa não está nas plataformas. Então pulamos para John Cameron Mitchell, que canta Diamond Meadows com leveza e uma disciplina quase artificial. Emily Haines fecha a primeira parte com Ballrooms of Mars, uma canção de ninar que provoca sonhos divertidos com o Chapeleiro Maluco. A segunda parte começa com Father John Misty ganhando respeito como um crooner digno de Main Man num boteco à beira da estrada. Perry Farrell tira o punch de Rock On para fazer diferente. O duo Elysian Fields se encarrega de The Street and Babe Shadow, que assume um perfil pop contemporâneo e dançante. Gavin Friday enche The Leopards de mistério com uma narração etílica sugestiva. Nena viaja no tempo com Metal Guru, que vira trilha de filminho adolescente. Marc Almond e sua experiência com o Soft Cell preenchem Teenage Dream de insinuações de Cabaré Voltaire. Organ Blues fica encharcada de gospel na voz encorpada e vibrante da Helga Davis. Parece que Todd Rundgren gravou Planet Queen embaixo de camadas de timidez. A verve jazzy de Jesse Harris funciona em Great Horse com falsetes soprados pelo vento. Os irmãos Lennon, Sean Ono e Julian, são acompanhados por cantoras. Sean Ono e Charlotte Kemp Muhl são discretos em Mambo Sun. Julian e Victoria Williams são mais confiantes em Pilgrim’s Tale, por causa dela. David Johansen, que foi do New York Dolls, deve saber o que fazer com Bang a Gong. Ele se apresenta sem filtros, mas também sem encantos adicionais. Para encerrar, Gavin Friday retorna com Maria McKee em She Was Born To Be My Unicorn/ Ride a White Swan. É menos interessante do que sugere. O produtor responsável por Angelheaded Hipster, Hal Willner, morreu de Covid-19 em abril. Com certeza, o caminho foi longo. Vale a pena atravessá-lo como duas homenagens distintas e merecidas.

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Stones requentam Sopa de Cabeça de Bode

Os Rolling Stones relançaram Goats Head Soup em uma edição de luxo. O disco de 1973 é uma das maiores ressacas da história do rock. A banda pagou caro a passagem para os anos 1970. A saída de Brian Jones culminou com sua morte, logo depois. De Beggars Banquet para Let it Bleed houve a transição para Mick Taylor. O cara pegou uma pedreira de clássicos, Sticky Fingers e Exile on Main St. E duas produções que significam uma ladeira para os Rolling Stones, Goats Head Soup e It’s Only Rock’n’Roll. Mick Taylor foi substituído por Ron Wood. Digamos que a segunda metade da década foi no módulo meia boca. Imagina, com Some Girls no meio do caminho. O último grande trabalho dos Rolling Stones, Tatto You, é do começo dos anos 1980. Em seguida, a banda virou a empresa que todo mundo conhece. Mick Jagger, Keith Richards, Ron Wood e Charlie Watts não param, mas também não emplacam nada muito interessante. Vivem como as lendas. Vê-los no palco, até hoje, é um deleite. Para ouvir as músicas de um passado cada vez mais distante. De volta à ressaca. Os Rollings Stones quebraram tudo de 1964 a 1972. Até porque digladiavam com os Beatles. Numa época de efervescência absurda na música pop, de modo geral. De Beggars Banquet a Exile on Main St., eles se superaram. Uma sequência matadora. Incluindo uma gravação ao vivo, Get Yer Ya-Ya’s Out!, que ainda emana uma chuva de raios. Isso tem um preço. As divergências entre Mick Jagger e Keith Richards se acentuaram ao ponto da colisão inevitável. Como aqueles cabritos que batem cabeça pra dominar o território. O consumo de drogas pesadas chegou a níveis inimagináveis. Mick Taylor ficou desestruturado, coitado. Até porque ele queria afirmar presença como o músico talentoso que era. Os coleguinhas não davam brecha. Os egos tinham posições definidas. Mick Taylor tinha que se contentar em ser coadjuvante. Bill Wyman, caladão, ficava na dele. Mas Bill Wyman era titular desde o começo do jogo. Sabia seu lugar. Mick Taylor pulou fora no disco seguinte a Goats Head Soup. Que ostentava a missão de dar continuidade aos trabalhos de primeira linha. Não foi o caso. Não dava pra manter o pique indefinidamente. Em algum momento, a bola teria que baixar. Calhou de ser em 1973. Olhando bem, Goats Head Soup é um disco que muitas bandas dariam tudo pra chamar de seu. Afinal, tem Angie, um dos maiores sucessos dos Rolling Stones, em suas fileiras. Ocorre que o conjunto não é tão brilhante quanto os anteriores. Então, por que promover seu relançamento? Primeiro porque você não diz a um Rolling Stone o que ele pode e o que ele não pode fazer com sua obra. Segundo porque é uma boa ocasião para requentar um título que foi colocado na geladeira. Terceiro porque recuperaram uma faixa que conta com a participação do Jimmy Page. Soa arqueológico. Scarlet não traz nada de grandioso. Quer dizer, pelo fato de contar com a guitarra do Mr. Led Zeppelin. Quarto porque há outras faixas recuperadas nos arquivos. Incluindo takes instrumentais. Quinto e último porque acrescentaram um show gravado em Bruxelas. Ou seja, tem muito penduricalho pra valorizar o repertório. Tudo com tratamento sonoro de última geração. Dá uma chance aí e curte essas paradinhas. Claro, deixa com a gente. Vá direto para o show. O entusiasmo é garantido. Volte para Goats Head Soup. Os acréscimos podem esperar. Dessa maneira, os Rolling Stones mantêm a fama de malvados na pandemia. Enquanto Mick Jagger prepara material inédito. Desde, provavelmente, A Bigger Bang, de 2005. Quando o mundo podia respirar sossegado.

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A melhor cantora de discoteca da atualidade

What’s Your Pleasure?, da cantora Jessie Ware, abre com Spotlight, que remete à discoteca. A faixa título, em seguida, reforça a impressão. Somos transportados para uma pista de dança. Não seria uma surpresa dar de cara com Tony Manero, o personagem do John Travolta em Os Embalos de Sábado à Noite, rodopiando por ali. Ooh La La, terceira faixa de What’s Your Pleasure?, expande a percepção de que o registro é de uma época. Não de um local específico. Assim, se você acompanhou a produção musical dos anos 1970, do outro lado dos inferninhos punks, será facilmente lembrado, por Jessie Ware, dos nomes que povoaram a programação das rádios e deixaram uma porção de festinhas mais animadas. Pode ser, inclusive, que você seja levado a recuperar passos decorados e perdidos em algum lugar do passado. What’s Your Pleasure? é um tratado sociológico. Mas isso parece algo sério e a intenção, definitivamente, não é essa. O álbum de Jessie Ware soa como se fosse uma coletânea de sucessos que você ouviu em algum momento da juventude. In Your Eyes, a sétima faixa, mantém esse poder intacto. Dependendo da imaginação, é possível citar o nome do filme do qual ela fez parte. Não será verdade, mas será divertido colocar Tom Cruise no elenco. Como Daft Punk, Jessie Ware confere grande relevância a sintetizadores eternamente pilotados por Giorgio Moroder, estilista que deixou sua assinatura no tempo e no espaço aludidos. Como Nile Rodgers, Donna Summer, Diana Ross e uma infinidade de nomes menos votados. Cortesia do produtor James Ford, principal responsável pela unidade de estilo de What’s Your Pleasure?. O que significa a lapidação de referências que transitaram em ambientes refinados e exclusivos. Alguém chutou o Studio 54 em Nova York como ícone fashion deslumbrante, frequentado por certa nata de privilegiados que curtiam (como escreveu um crítico dos bons) seu tédio e boçalidade em uma névoa de glamour e decadência? A ponta do iceberg que encobria a placa tectônica do euro disco, à base de alemães um tanto apocalípticos? The Kill é uma faixa que faz a ponte com desenvoltura. Não vamos esquecer que o aspecto eletrônico acabou incentivando britânicos entediados a burilarem a música pop com destreza gótica e maquiagem pesada. Mas este é um desdobramento, sisudo ou inconsequente, que Jessie Ware não almeja alcançar com What’s Your Pleasure?. Ela mesma londrina que cresceu à sombra de Sade Adu, Lisa Stansfield e demais representantes de um soul filtrado por um estado de espírito blasé. A garota é formada em literatura e trabalhou como jornalista, antes de pular o balcão. Colaborou em projetos coletivos e alheios até imprimir o visual de diva na capa de Devotion, seu primeiro solo em 2012. Dave Okumu oferecia seus préstimos em um trabalho que já trazia elementos explorados com mais acuidade em What’s Your Pleasure?. Mas é notável a coerência interna do que Jessie Ware assume como um conceito fechado. Em 2014, ela surge descontraída e casual em Tough Love, sob a batuta de Benjamin Ash, que plastificou as canções sob o condão de arejá-las. Glasshouse, de 2017, multifacetado, tem pontas soltas e não se afirma como deveria. Fica no meio do pastiche. What’s Your Pleasure?, perto deles, é uma obra-prima. Dizem que a imagem da capa foi inspirada em Bianca Jagger. O que só aumenta seu fascínio histórico e histriônico. A melhor maneira de ouvir o álbum é ao ar livre, tocando no walkman, enquanto você executa manobras com os patins. O grande pecado é que ele poderia ter ficado um pouco mais vulgar. É muito sofisticado!

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Os leões do jazz continuam rugindo

Joshua Redman é um dos mais conhecidos músicos de jazz da geração dos anos 1990. Se não for o músico mais conhecido dessa geração, que surgiu com desafios enormes. Como deixar claro que o jazz não estava morto e que era possível continuar nessa estrada com originalidade. Apesar dos nomes que vieram antes com trabalhos inesquecíveis. Não é fácil ser comparado, o tempo todo, com os imortais, em condições de desigualdade, porque você é um iniciante. Por isso, a geração de Joshua Redman ganhou o apelido de Young Lions ou Jovens Leões. Em 1994, Mood Swing, quinto disco de uma carreira iniciada em 1992, reuniu, além do jovem saxofonista tenor, o pianista Brad Mehldau, o baixista Christian McBride e o baterista Brian Blade. O quarteto reaparece no recente Round Again, 26 anos depois. Nesse período, Joshua Redman gravou 17 álbuns. Seus colegas gravaram outros tantos, como líderes de suas bandas ou como integrantes de outras bandas, praticando o exercício da linguagem. Não deixa de ser uma celebração muito bem vinda. Os rapazes não são talentos promissores. São nomes consolidados e respeitáveis. Cabe perguntar onde estão os Young Lions de hoje? A capa de Round Again, título mais do que apropriado, é um exemplo de colaboração. Os quatro estão alinhados, sem uma ordem de importância. A grafia dos nomes, na vertical, põe Redman e Mehldau sobre McBride e Blade. Compreensível. Redman comanda a reunião. Mehldau tem sua importância ao piano. Ambos são os principais compositores e solistas. McBride e Blade assinam uma faixa cada um. Os arranjos são coletivos, em sete faixas de cinco a sete minutos. Nada extenuante para quem não está acostumado com longos solos. Redman e Mehldau não se afastam de seus companheiros em divagações eruditas de alcance ilimitado. O grupo tampouco fica esnobe em digressões incompreensíveis. A categoria consiste exatamente em se comunicar com clareza, sem abrir mão da personalidade. Silly Little Love Song, por exemplo, tem uma abordagem tão acessível que se aproxima do pop, com direito a solo de contrabaixo. Compacto e descontraído, livre da ambição da revolução, Round Again é uma delícia para todas as idades. O trompetista Charles Tolliver, mais velho do que Joshua Redman, começou a gravar no final dos anos 1960. Imediatamente, se sobressaiu com The Ringer. A carreira sofreu um hiato enquanto o pupilo engatinhava no jazz. Na retomada dos anos 2000, Charles Tolliver marca presença com mais um título adequado, Connect. A banda é formada por Jesse Davis (sax alto), Keith Brown (piano), Buster Williams (contrabaixo) e Lenny White (bateria). Binker Golding (sax tenor) participa em duas faixas. Aqui, por razões óbvias, temos um close do veterano que tocou ao lado de grandes mestres na capa, sem pose ou pretensão. Connect exige mais atenção do ouvinte, que vai se deparar com quatro faixas um pouco mais longas. Nada que afugente o principiante. As mudanças de andamento de Emperor March passeiam, inclusive, pelo samba, numa referência mais fortuita que incisiva. Blue Soul, com uma pegada tribal, convida ao desfrute e, apesar de se importar com uma narrativa da música negra americana, não perde a capacidade hipnótica. Copasetic traz o clima característico de uma big band ao recinto, com a sonoridade requintada de um quinteto. Resultado de uma interpretação reluzente, que não se acanha na demonstração da alegria. Suspicion abre com Buster Williams dando razão a seus dedos e logo entra numa galopada admirável e intrincada, que justifica o título do álbum. Entre veteranos e veteranos, o jazz emite sinais de vitalidade. A falta de ouvintes em massa não tem sido um problema.

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A alma romântica de um cantor de soul

Cee Lo Green tem a manha e a manhã pra curtir a ressaca de uma noite de amor. O cara manda bem. Nada sei na questão da intimidade. Mas nas canções que incentivam a dita cuja, com certeza. Baixou o santo do Marvin Gaye no terreiro. Diminua a luz, por favor. Ou, como disse Rod Stewart naquela música famosa, disconnect the telephone line, relax, baby, kick off your shoes e coisa e tal. Lembra um sujeito elegante e cativante na sedução, Maxwell. Putz, Urban Hang Suite tem mais de 20 anos. Acho que perdi alguma coisa no meio do caminho. Vou traçar uma linha, então, pra não passar vergonha, entre Urban Hang Suite, que selou o movimento neo soul, e o disco novo do Cee Lo Green, que se chama Cee Lo Green Is Thomas Callaway. Quem é Thomas Callaway? Pouco importa quando Cee Lo Green está cantando. Esquece. O cara adora um personagem. Lembra do Gnarls Barkley, na companhia do Danger Mouse? Vai por aí. Agora ele está na companhia do Dan Auerbach. O guitarrista do Black Keys assume a produção. O que não deixa de ser engraçado. Dan Auerbach vai por uma estrada roqueira e alternativa. Cee Lo Green está totalmente Slow Down, nona faixa do álbum, aliás, como Thomas Callaway. A voz dele, inclusive, desceu um pouquinho daquele pedestal estridente. Tudo bem, nem tanto ao grave do Barry White. Mesmo lascando um falsete aqui e acolá, Cee Lo Green comanda um vocal aveludado. Macio, na maciota. Ganha o jogo no charme. Suando a camisa nos momentos certos. Thomas Callaway resgata um soul das antigas, alguns dirão vintage, com uma categoria a toda prova. A maestria do Dan Auerbach foi colocar-se à disposição do artista. É assim que você quer? Beleza. Vamos nessa direção. O ego que sobressai é do Cee Lo Green ou do Thomas Callaway. A estética é de vinil. Começando pela capa à meia-luz, terminando na exata medida de lado A e lado B, com 12 faixas e um conceito fechado. Pra se ter uma ideia, cinco anos separam Thomas Callaway do anterior, Heart Blache, que aponta no rumo festivo e sacolejante, com paradas eletrônicas e a voz nas alturas. Os demais navegam na linha Bright Light Bigger City, Forget You, Fuck You, The Art of Noise. Um R&B bombado, sem dúvida. Mas o bamba se mostra na plenitude no ano da graça da pandemia. Como Thomas Callaway, ele sai da pista da boate e vai para a cama. Não que isso nunca tivesse acontecido antes. Mas não com essa frequência. E digo frequência sonora. Os primeiros segundos de For You e a entrada do cantor entregam o jogo sem falsidades. A primeira faixa diz tudo. A vibração do romantismo vai pavimentar o caminho. Ou você se entrega ou vai curtir em outra freguesia. Dor de cotovelo faz parte do jogo. Nada que tire o prazer de sentir o baixo de Lead Me. Outra curtição maneira é apurar o ouvido para os teclados marotos, que deslizam em várias tonalidades. Entendedores entenderão as nomenclaturas. O órgão de Little Mama, por exemplo, vagabundo à pampa. Os vocais de apoio femininos estão sempre por ali, circulando Thomas Callaway com atuação discretíssima. Às vezes, dando aquela impressão de que você ligou o rádio em uma emissora black dos anos 1970. Don’t Lie não me deixa mentir. Pena mesmo que o momento histórico impeça as apresentações do alter-ego de Cee Lo Green. Ele esteve no Rock in Rio, com a Iza, em 2017. Poderia voltar, quem sabe, em outros lugares para shows intimistas. Seria uma alegria conferir esse trabalho no palco. Cee Lo Green nunca foi um dos meus artistas preferidos na soul music. Até agora. Estou curioso para ver como ele vai superar esta fase brilhante.

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Há um rumor suave no cenário desolado

Rumer canta como quem conta uma história. É uma das melhores maneiras de cantar. Uma canção é o fragmento de uma vida. Dependendo do modo como ela nos toca, nossa vida começa a fazer parte do fragmento. A experiência pode ser dividida e compartilhada, sentida e incorporada ao limite do nosso alcance, mesmo quando o outro parece estar longe demais do nosso quintal. A gente se emociona com a emoção alheia no passe de mágica da canção. Como explicar? Para que serve a explicação? O que falta à razão consegue ser o segredo mais difícil de manter na esfera intuitiva. Às vezes, a própria palavra é insuficiente para descrever a magia. Uma coisa eu sei, executivos de gravadoras fariam de tudo para colocar o inefável na planilha. Assim, conseguiriam fabricá-lo em série. Matariam, por suposto, a raridade levando-a para o terreno do banal. Bom, esse é o trabalho da maioria deles. Na incapacidade de cometer uma atrocidade como essa, eles realizam apostas com um elevado grau de certeza. Mesmo lidando com personagens tão imprevisíveis como os artistas. Estes seres que manipulam sensibilidades, acima de tudo, gravitam em órbitas muito particulares. Alguns interessados no retorno imediato da comunicação instantânea, que tem regras bem específicas. Outros, aventureiros, dispostos a caminhar por trilhas menos confortáveis, desafiando o público a reações menos evidentes. O espectro, naturalmente, abrange uma variedade inesgotável de cores. Cada uma faculta uma bela gama de sentimentos. O problema, muitas vezes, é permanecer acessível a promessas que acenam e vão embora, se não forem correspondidas com um aceno de volta. Não sei exatamente como a Rumer me acenou com seu novo disco. Nashville Tears acaba de ser lançado nas plataformas de streaming. Como todo mundo, tenho algumas fontes de informação confiáveis. Nenhuma delas me contou que Rumer havia colocado sete singles desse álbum em destaque. Talvez porque, para mim, estivesse destinado o trabalho completo, que não vou deixar de ouvir tão cedo. Nashville Tears sugere decantação, contemplação. Preciso depurar cada faixa com o estado de espírito concentrado e, ao mesmo tempo, relaxado para flutuar sem impedimentos, ao sabor das impressões. Nashville Tears tem que ser degustado com calma, devagar, no andamento do sossego caseiro, como Rumer na capa, tomando sol e divagando na janela. À primeira vista ou à primeira audição, o disco insinua uma uniformidade na melancolia que pode fazer com que a gente acabe entrando no emaranhado de uma tristeza que puxa o novelo da nostalgia. Sabemos que isso tende a ser perigoso, neste período de privações, porque a depressão não perde uma boa oportunidade de bater à nossa porta com a mão pesada. Explorar esse território sem deixar escapar o fio de Ariadne que vai nos levar ao ponto de partida não é uma tarefa para quem anda propenso à confusão. Quem sabe Women in Music Pt. III, das garotas do Haim, provoque uma ondulação mais vibrante e com mais energia na sua vida. Mas, veja, não acho que Nashville Tears seja um álbum depressivo. Acho que ele é belíssimo na sua saga do sol poente. Ligando pontos diametralmente opostos. A cantora inglesa que interpreta a obra do compositor americano Hugh Prestwood. Ela gravou em Nashville, aliás, com toda sorte de violões e guitarras que choram, banjos, pianos e nenhum clichê de caipira. E a voz, ah, a voz da Rumer é preciosa, jamais preciosista. Ela conduz, nas 15 faixas, a amplidão de uma paisagem íntima, delicada e fina, em um mundo muito bagunçado. Estas lágrimas de Nashville lavaram minha alma. Espero que também lavem a sua. Não esqueça de acenar de volta.

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Sobre essa história do Eric Clapton ser racista e medíocre

A cantora Phoebe Bridgers afirmou que Eric Clapton é um músico medíocre e um racista famoso. Pegou pesado. Não sei quem é Phoebe Bridgers. Tenho um carinho enorme por Eric Clapton. Minha balança está desnivelada. Ele me levou para conhecer o blues. Tenho, portanto, uma dívida e uma gratidão eternas com Eric Clapton. Descobri Muddy Waters por causa dele. Teria encontrado Muddy Waters, mais cedo ou mais tarde, de um jeito ou de outro. Mas a história que me encaminhou até o mestre passa pelo discípulo. Pode ser que Phoebe Bridgers não goste de blues. Direito dela. A questão do racismo tem que seguir por essa via, também. Farei uma pergunta retórica. É possível amar o blues e ser, ao mesmo tempo, racista? Curioso, no mínimo. Como seu eu dissesse: os negros são horríveis e donos de canções maravilhosas. Dá pra separar uma coisa da outra? Gostar da música e odiar o artista? Phoebe Bridgers baseou-se em uma declaração de Eric Clapton para chamá-lo de racista. Ele teria dito, num show em Londres, que negros e árabes não deveriam ficar na Inglaterra. Algo do tipo. Deve ser verdade. Consta que uma campanha do rock contra o racismo foi inspirada na diatribe. Não pretendo justificar uma infelicidade no grau dessa magnitude. Lamento profundamente que um artista que estimo tanto seja capaz desse tipo de raciocínio e sentimento. O que me cabe esperar, na condição de fã, é que ele tenha mudado de ideia. O fato lembrado por Phoebe Bridgers aconteceu em 1976. São mais de 40 anos. É muito tempo de cobrança por uma declaração infeliz. É um período de tempo considerável para rever uma declaração insensata. A verdade é que não conhecemos nossos ídolos na intimidade. Apreciamos ou não o desempenho deles nos palcos e nos estúdios. Quando interessados, procuramos as matérias, críticas e entrevistas. Quem eles são como pessoas é algo que nos escapa. Isso também colabora para a construção do herói. O mistério é necessário em uma personalidade complexa. Da parte visível do trabalho do Eric Clapton, ele atua com músicos negros. Pelo menos, nunca se furtou a isso. O baixista Nathan East me ocorre no momento. Eric Clapton gravou com BB King e Wynton Marsalis. Além de um ano dedicado à gravação da obra de Robert Johnson. Em um dos festivais Crossroads, nos quais reúne guitarristas de vários estilos, com renda beneficente para uma instituição que oferece tratamento a dependentes químicos, Eric Clapton recebeu um brinde emocionante do BB King no palco: “que eu viva para sempre, mas que você viva para sempre e mais um dia, pois eu detestaria estar aqui quando você partir; quando me sepultarem, que a última voz que eu ouça seja a sua, dizendo que, em vida, nós fomos amigos”. Não é o tipo de elogio que um negro faça a um branco racista. Phoebe Bridgers também alardeou que Eric Clapton é um músico extremamente medíocre. Certos discos do Eric Clapton me são intragáveis. Em especial durante os anos 1980, quando ele andou na companhia do Phil Collins como produtor. Há títulos que não suporto e outros que considero imprescindíveis. Difícil é conceber que um músico extremamente medíocre, como sustenta Phoebe Bridgers, tenha enganado tanta gente espetacular por tanto tempo. Para quem começou no Yardbirds e foi substituído por Jeff Beck, para quem fez estágio nos Bluesbreakers, do John Mayall, foi chamado de deus nos muros londrinos e substituído por Peter Green, para quem tocou no Cream e no Blind Faith, para quem gravou com Duanne Allman no Derek and The Dominos, para quem fala mais com a guitarra do que com a voz, somente pela suspeição de ter tocado o solo de When My Guitar Gently Weeps, do George Harrison, Eric Clapton não merece o título de músico extremamente medíocre. Quem sabe, Phoebe Bridgers leve menos de 40 anos para rever suas declarações.

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