Como fazer um castelo de chocolate

Escrevo no Domingo de Páscoa e quero deixar uma mensagem sobre a ressureição de Cristo para quem não é religioso. Mas sem pieguice. Se você não acredita nessa história e acha que tudo não passa de invenção, eu não estou aqui para fazer você mudar de ideia. Relaxa. Só estou pensando alto. Afinal, quem leva a sério um sujeito que morreu e voltou da morte como se tivesse acordado de um sono profundo? Isso é narcolepsia.

Bem, no caso de Cristo, alguns elementos deixam claro que não foi um ataque de narcolepsia. Quais? As mãos e os pés pregados na cruz, talvez? A lança do centurião que atravessou o tórax dele? As longas horas de agonia? Enfim. Cristo morreu e, se não tivesse morrido, seria alguém com uma resistência fabulosa. O que levanta uma dúvida pertinente. Se ele era Deus ou o filho de Deus, não poderia ter evitado o sofrimento?

Sim, claro, poderia. Por que não? Um teólogo, certamente, conhece a resposta certa. Eu, como disse, estou apenas pensando alto. O que me deixa à vontade para errar. Depois, eu volto atrás, reconheço o meu erro e terei aprendido alguma coisa. Cristo aceitou a missão de dar a sua vida para salvar a humanidade. Como recusar um destino tão nobre?

Nós, que somos medíocres, temos medo da dor e preferimos uma bela taça de sorvete de chocolate, pensaríamos muitas vezes para aceitar um destino que servisse de exemplo para todos. Nós queremos entrar na história com uma startup, não morrendo para salvar alguém. Mas, para aceitar um destino como esse, eu ou ele ou você teria que ser um espírito adiantadíssimo, do tipo que daria graças para ajudar os menos evoluídos.

Para ser chamado de filho de Deus, vamos combinar que Cristo se encontra algumas casinhas na nossa frente. A imagem do crucificado virou o símbolo do cristianismo, da igreja católica e tal. Não é uma imagem agradável de se ver. Por que ela aparece com tanta ênfase? Para lembrar o extremo da humildade. Se Cristo chegou a esse ponto por nós, a que ponto nós podemos chegar por ele ou por outros como nós? Hum, essa doeu.

Tá, mas eu falei que a mensagem era para quem não é religioso. Quem é religioso ou quem teve, como eu, um pouquinho de formação religiosa, nem que tenha sido na infância, ou mesmo quem lê um pouco, por curiosidade, conhece por alto a história de Cristo e tem uma noção básica do que a Páscoa significa. Mesmo assim, é possível afirmar que ressurreição e milagres e andar sobre a água e vinhos são balelas e fantasias.

Vamos olhar para o lado simbólico da transformação. Reviver significa dar um cutucão nos nossos valores e ideais, para que eles acordem, onde quer que estejam adormecidos. Tipo, se levanta, deixa de preguiça. Quando foi que a gente se perdeu? Desde quando a gente se esqueceu de tudo o que seria o melhor de cada um? A Páscoa é o momento de resgatar os sonhos apagados. Tudo bem se não for na Páscoa. Mas agora é o momento.

Estamos tão dedicados em separar o mundo em gavetinhas que deixamos de lado a lição da caridade. Cristo morreu na cruz pra gente se ligar que a vida vale mais do que deixar o tempo escapar em vão. É hora de recuperar o sentido da existência, meus amigos.

Anúncios
Publicado em Sem categoria | Deixe um comentário

Como inventar um festival de rock

O assunto da semana, para mim, não foi o julgamento do habeas corpus do Lula nem a discussão entre Luís Roberto Barroso e Gilmar Mendes no STF nem o Lollapalooza em São Paulo. O assunto da semana, para mim, foi o Festival DQD. Fake news, para falar a verdade. O festival não existe e, em sua escalação, tem bandas que também não existem.

Tudo começou, claro, com uma brincadeira. Durante o programa, enquanto falávamos sobre a corrupção cotidiana do brasileiro médio, Henrique Morgantini perguntou: “qual seria a origem do caos?”. Eu disse, depois das considerações de todo mundo, que A Origem do Caos é o nome da melhor banda que jamais terei na vida. Este foi o start.

Em seguida, quando o assunto era uma organização que procura renovar os quadros da nossa política, um ouvinte mandou um áudio afirmando que a organização não passava de uma escola de Dorias, referindo-se, naturalmente, ao prefeito João Doria. Embalado, eu disse, mais uma vez, que Escola de Dorias era um excelente nome para uma banda.

Nesse momento, alguém transformou Pitadas de Psicopatia, do desabafo de Luís Roberto contra Gilmar Mendes, em uma banda punk. Mais tarde, quando uma ouvinte que alardeava a morosidade da Justiça lascou um “certames absurdos” no ar, nós tínhamos certeza de que este seria o nome de mais uma banda famosa no underground.

Foi assim que surgiu o Festival DQD, que aconteceria, a princípio, no Martim Cererê. Mas decidimos que o DCE da UFG seria o lugar ideal. Nosso colega de bancada, Marcilon Almeida, que é professor de Design, foi encarregado de confeccionar o cartaz. Ele preparou uma pequena obra-prima da tosqueira, que pode ser vista no Facebook.

Com um pequeno detalhe maravilhoso. Pitadas de Psicopatia foi escrito como Pitadas de Pisicopatia. Ora, punks estão pouco se lixando para a gramática. Mas o Marcilon é acadêmico e deve ter ficado pouco à vontade com o erro proposital. Quis mudar. Até mudou. Mas o conselho do Festival recusou a correção. Viva Pitadas de Pisicopatia.

Ok, se essa galera é punk da velha escola, o que seria a Escola de Dorias? New wave. Segundo Morgantini, com uma mulher nos teclados. Segundo eu mesmo, como se fosse na linha Devo. A Origem do Caos é uma banda neo hippie, de som psicodélico, que segue as pegadas dos Black Crowes. Os Certames Absurdos ficaram indefinidos.

Optamos por um perfil empolado, do tipo que não busca o sucesso, mas sacudir o sistema. Uns caras metidos a besta que, além do mais, não tocam nada com nada. Essa brincadeira toda aconteceu no dia da morte do Carlos Eduardo Miranda. A gente ficou sabendo disso na sexta-feira. Mas foi uma coincidência extremamente saudável.

Carlos Eduardo Miranda era dos festivais independentes e das bandas alternativas. Sem querer, nossa zoeira inocente serve de homenagem a um cara conhecido por sua alegria.

Este texto também foi publicado no site da Interativa.

Publicado em Sem categoria | Deixe um comentário

Como ter um coração brando

Smooth já deu suas cabeçadas com os Vícios da Era. Depois de um refresco em outros trampos, ele voltou a empunhar a guitarra e a cantar na Branda. A banda que se dá ao luxo de contar com Thiago Ricco no baixo e Luan Rampazzo na bateria. Pelo menos no primeiro disco, que foi gravado por Paulo Celestino, no Up Music, e circula nas nuvens.

Smooth se entrega por inteiro em todas as etapas. Merece os elogios e as reclamações, caso você não tenha gostado de alguma coisa. Eu acho, por exemplo, que duas canções dedicadas aos pais configuram um pouco de exagero. Nada contra o fato de Smooth amar sua família e nada contra ele resolver homenagear sua família em duas canções.

Anda raro, hoje em dia, ouvir um filho declarar seu amor aos pais. Smooth não se limitou à esfera caseira. Cantou a plenos pulmões em O Sol de Um Dia Melhor e Bonfá e Lena. Bonito. Mas excessivo. Não sei porquê, lembrei de Mother, do venerando John Lennon. Não quero comparar intenções. Lennon cantou o pai e a mãe que ele não teve.

A música pop necessita de uma fundação arisca em sua estrutura. Um senso de atrito e desproporção com o mundo, para gerar faíscas. Estamos cheios de canções bonitinhas. Precisamos de canções instigantes. Entendo perfeitamente ou penso que entendo que o som da Branda chega a ser revolucionário em sua dimensão de carinho e simpatia.

Sobretudo, de gentileza. É preciso coragem para ser gentil num mundo que insiste em parecer hostil, carrancudo e arrogante. A Branda traz uma leveza introspectiva e poética que são contagiantes. Pretensiosas, talvez, em alguns títulos, como A Beleza Própria da Inocência, Em Meio à Balbúrdia da Vaidade e Uma Melodia pra Ver se Inspira.

Smooth está preocupado em resgatar os bons sentimentos de rotinas embrutecedoras. Não estou dizendo que ele colocou açúcar demais na receita. Estou tentando dizer que prevaleceu a face do bom moço. E sugerindo o equilíbrio com os problemáticas da existência. Pra gente sacar quais são as aflições do cara e confrontar com as nossas.

Eu também amo meus pais e Dante Ventura também gravou um disco cheio de ternura em O Homem Solar. Estamos todos torcendo para esse país melhorar e para esse mundo ser mais justo. Mas pode ser que eu não esteja na mesma vibração positiva do Smooth.

Rodolfo Campos levou Underdog, que ele gravou com Washington Micena (bateria), em um home studio, na rádio. Ele se vira no vocal, guitarra, baixo, violão e teclados. Os desenhos maneiríssimos da capa e do encarte são do Márcio Jr. e da Márcia Deretti.

Underdog tem apelo de banda de garagem, com som abafado e tal. E abre com uma faixa completamente diferente da outra. Se agarra às margens do rock’n’roll e soa datado feito um álbum de figurinhas, no qual reconhecemos as faces desbotadas daqueles heróis do passado. Um retrato fiel do seu realizador. Eu gostei de Blues Up.

Este texto também foi publicado no site da Interativa.

Publicado em Sem categoria | Deixe um comentário

Como contar histórias curtas

Não escrevi a crônica da semana passada porque meu irmão Beto completou 50 anos de idade e Adriana e eu completamos 24 anos de casamento. Comemoramos com um almoço em casa. Pai e mãe, irmão e irmã, cunhado e sobrinhas. Desligados os celulares, comemos, bebemos, rimos e conversamos. Sem a obrigação da pressa. Algumas pessoas chamam isso de celebrar a vida. Acho que, por isso, não deu vontade de escrever.

Caio nasceu alguns dias depois da morte do pai do Mauro. Emoções extremas com uma proximidade avassaladora. Desculpas fortes para justificar um desequilíbrio emocional. As crianças, por incrível que pareça, demonstraram fisicamente o que os adultos se esforçaram para evitar. Ana Luísa pegou uma virose que a deixou prostrada. Isabela passou mal sem tanta gravidade. Patrícia sentiu com força o chamado da proteção.

Seu João levantava cedo para trabalhar. Dona Angelina levantava cedo também. Ela preparava o café. Da cama, eu ouvia o programa do Zé Béttio no radinho de pilha. “Joga água nele, dona Maria.” E a sonoplastia repetia o barulho da água jogada na cara do preguiçoso. Era engraçado todo santo dia. Como posso negar que as modas de viola de tantas duplas caipiras maravilhosas permanecem imantadas na minha memória afetiva?

Tucuruí era uma cidade perdida na selva amazônica. O centro da vila tinha um comércio com bares e lojas. Foi lá que eu ouvi Led Zeppelin pela primeira vez. Sem saber que era Led Zeppelin. Eu sabia que aquela música que vinha do bar, à tarde, com pouca gente por perto, estava ali para me pegar pelos ombros e dar uma chacoalhada. Eu nunca tive a chance de agradecer ao sujeito que mudou minha vida ao tocar Black Dog nas alturas.

Sonorizar a loja de departamentos significava tocar as músicas preferidas da massa. Até hoje, sou traumatizado com hinos de Natal na harpa. Mas não dava pra pirar, de vez em quando? Subverter a ordem com a surpresa? Trocar o banal pelo extraordinário? Só para ver a reação das pessoas? Mesmo que depois viesse uma bronca do chefe? Mandei Janis Joplin. O telefone tocou. O segurança do estacionamento tinha entrado em frenesi.

Um amigo que gosta de falar me deixa livre para ficar quieto. Eu sou mais de observar do que de emitir opinião. Chega a ser engraçado trabalhar numa rádio. Mas o Jorge exagerou quando começou a me contar uma história no cinema. Eu queria ver o filme do Trinity. Terence Hill e Bud Spencer eram o máximo. Brigavam o tempo todo. Jorge me fez perder duas boas cenas. Mas eu não guardei uma palavra do que ele disse.

Voltávamos para casa à noite. Eu, não sei mais quem e o Geraldo. De repente, do nada, uma turma de moleques da nossa idade partiu pra cima da gente, gritando. Sem mais nem menos. Eu e não sei mais quem saímos correndo. Geraldo ficou. Não para enfrentar os caras. Para contemporizar. Levou um soco na barriga. Eu e não sei mais quem voltamos. Não para enfrentar os caras. Para ajudar o Geraldo. Os valentões nos abandonaram. Eu não estava pronto para brincar de Os Selvagens da Noite.

Este texto também foi publicado no site da Interativa.

Publicado em Sem categoria | Deixe um comentário

Como fazer caldo de cana

MC Loma se apresentou em Goiânia na mesma noite do americano Earl Thomas. Seria uma injustiça comparar os dois artistas. A distância entre eles é grande. Mas eu vou tentar uma abordagem. MC Loma ganhou visibilidade nas redes sociais com o clipe caseiro de Envolvimento. Poucos brasileiros conhecem o trabalho de Earl Thomas.

Ela é uma adolescente pernambucana que ainda não terminou os estudos. Ele é um adulto com formação em Música. Loma não precisou da indústria fonográfica para virar um fenômeno. Earl gravou uma dezena de discos e colaborou com nomes importantes nos Estados Unidos. Ele tem uma carreira forte. Ela está no começo de uma carreira.

O que é uma carreira forte? É uma carreira que permite ao artista circular com seu trabalho por diversos palcos. Não significa que ele seja tão famoso quanto BB King. Significa que ele continua criando e apresentando suas criações para um público que está disposto a ouvir o que ele tem a dizer. Uma dedicação exclusiva a um propósito.

Toda carreira começa de algum ponto específico para cada artista. As tradições familiares de Earl Thomas influenciaram suas decisões. Ele pesquisou a história dos seus ancestrais. Usou a tradição como massa de modelar o futuro. Misturou a dinâmica do seu tempo com o passado. Buscou uma simbiose que resultasse em originalidade.

MC Loma resolveu brincar com as tendências ao seu redor. Chamou as primas, que são gêmeas, lacradoras. Filmou tudo do seu jeito, no seu bairro, com seu sotaque. Um clipe que não tinha a intenção de ir além dos seus amigos. Uma canção que não pretendia ser o hit do Carnaval. Acredito que a explosão pegou todo mundo de surpresa. Eis o ponto.

Agora nós temos três meninas transformando em realidade os sonhos de estrelato. Elas estão viajando pelo Brasil, se hospedando em hotéis, dando uma séria de entrevistas, subindo em palcos de todos os tamanhos e mostrando o que sabem fazer para plateias mais e menos animadas. Sem contar a necessidade de lançar novos clipes nas redes.

A pressão vem junto com o sonho. O glamour pede ensaios, coreografias, cuidados com as companhias, uma atenção com a voz, com a postura, com a alimentação e por aí vai. Um produtor deve tomar conta de uma equipe que deve tomar conta de uma agenda que deve levar as meninas ao maior número possível de shows. Para aproveitar o momento.

Porque o momento passa. A brincadeira vira trabalho. A manutenção de uma carreira exige maturidade, que se tem ou que se conquista. MC Loma e as Gêmeas Lacradoras não foram preparadas para entrar no furacão. Elas foram colocadas lá dentro. Por méritos próprios e por cálculos alheios. Combinação que pode acabar em frustração.

Não estou criticando a qualidade do material que elas têm em mãos. Critico a máquina de garapa que espreme a cana até sobrar o bagaço. Earl Thomas, pelo menos, faz suco.

Este texto também foi publicado no site da Interativa.

Publicado em Sem categoria | Deixe um comentário

Como dançar o funk

Igor Prado estará em Goiânia, sexta-feira. Dá uma olhada na agenda e se liga. Sempre que Igor Prado visita a cidade, ele traz um convidado. Um cantor, uma cantora, de soul ou de blues, que arrebenta. O nome da vez é Earl Thomas. Eu nunca tinha ouvido falar do cara. Bastou uma pesquisa rápida para ser conquistado pela voz do sujeito.

A primeira tentativa leva para um jogador de futebol americano. Não é ele. A segunda tentativa leva para o Earl Thomas que nos interessa. O artista com 11 discos lançados, que já concorreu a dois prêmios Grammy e tem andado em boa companhia: Etta James, Solomon Burke, Tom Jones, Joe Cocker. Nada como ter referência nessa vida.

Earl Thomas é uma enciclopédia ambulante de música negra americana. Nascido no Tennessee, ele mora na Califórnia. A mãe era cantora gospel. Em casa, ouvia de Mahalia Jackson a Aretha Franklin. Põe casa no mapa. O pai era da Marinha. O garoto cresceu se mudando de um lugar para o outro. Caleidoscópio resume bem a parada.

Essa história de cantar ficou séria depois da faculdade de Música. Com a lábia do blueseiro, Earl Thomas diz que não escolheu o blues. Foi escolhido. O projeto de final de curso era gravar um disco. Que acabou sendo mandado para algumas revistas. E mereceu uma crítica que abriu as portas de uma gravadora e do festival de Montreaux.

O nome do dito cujo, I Sing the Blues, foi trocado para Blue, Not Blues. Etta James gravou a faixa título. Solomon Burke mais três. Um empurrãozinho na carreira vai bem. Daí em diante, Earl Thomas esmerou sua mistura de tudo quanto há de bom. Blues, gospel, soul, rhythm’n’blues e rock’n’roll. É nessa hora que a gente fala ‘yeah’!

O contato com Igor Prado se deu através da cantora Tia Carrol. Whitney Shay e Annika Chambers também indicaram o guitarrista brasileiro. O encontro resultou numa turnê em fevereiro. Que passa por Goiânia esta semana. Oportunidade para conferir a banda nova do Igor, a Just Groove. Não que a Igor Prado Band tenha acabado. Veja bem.

Igor, seu irmão Yuri (bateria) e Rodrigo Mantovani (baixo) formam o núcleo da usina há 17 anos. Vários músicos reforçaram o naipe ao longo dos anos. Diversos gringos de respeito contribuíram para a moral da trupe. No disco Way Down South, que entrou no Memphis Blues Awards 2016, estão Mud Morganfield, Sam Wilson e Lynwood Slim.

Eles deram um tempo, simplesmente. Para seguir novos rumos. Rodrigo Mantovani está produzindo a mulher dele, Bia Marchese. Yuri é diretor de arte de uma agência de publicidade. Igor está construindo a ponte que liga blues, soul, funk e música brasileira.

A Just Groove é formada por embaixadores do suingue: Rael Lúcio no baixo (Seu Jorge, Mano Brown, Banda Black Rio), André Azevedo na bateria (Thalles Roberto), Jesiel Oliveira na guitarra (Leo Maia) e Luciano Leães nos teclados (Fernando Noronha, Big Chiefs). Enfim, o caldeirão vai ferver e quem perder é mulher do padre. Vai lá.

Este texto também foi publicado no site da Interativa.

Publicado em Sem categoria | Deixe um comentário

Como sair do cinema abalado

Duas notícias cinematográficas chamaram minha atenção, na semana passada. A primeira sobre o filme do Pantera Negra, com estreia marcada para quinta-feira. A segunda sobre o filme do Coringa, sem lançamento marcado. Um herói politicamente correto e um vilão alucinadamente incorreto. Similares e distantes ao mesmo tempo.

O primeiro ganhou a estatura de Chadwick Boseman. O segundo, ao que tudo indica, ficará nas mãos de Joaquin Phoenix. São convites praticamente irrecusáveis para uma sessão da tarde. Embora minha paciência com super-heróis diminua a cada novo título.

Parece que estamos condenados a esse tipo de ação desenfreada e parece que os intervalos são preenchidos por desenhos animados. Afinal, precisamos levar as crianças ao cinema. Os filmes adultos correm por fora, como azarões. O exemplo perfeito do que digo é Três Anúncios para Um Crime, de Martin McDonagh. Vamos voltar ao começo.

É importante que Pantera Negra seja bem sucedido nas bilheterias, no momento em que o primeiro presidente negro dos Estados Unidos é substituído por um presidente branco que dá sinais de apoio aos arianos truculentos, nos conflitos raciais de Charlottsville.

É importante que as guerreiras do príncipe T’Challa sejam mulheres negras, no momento em que as denúncias de assédio sexual são discutidas no café da manhã e em que as mulheres pedem valorização artística e equiparação salarial em Hollywood, lembrando que as mulheres negras são menos valorizadas que as mulheres brancas.

Também é importante destinar um vilão iconoclasta como o Coringa à composição de um ator que não se rende ao tratamento vulgar e que busca desafios na carreira. Uma pena que o roteirista Scott Silver e o diretor Todd Phillips, dotados de filmografias de comédias ralas, não sejam exatamente promissores no que diz respeito ao personagem.

Heath Ledger, mais do que Jack Nicholson e o intragável Jared Leto, deu-nos mostras do quanto o Coringa pode mexer com o estabelecido e bagunçar o coreto da verdade, mostrando realidades paralelas com humor literalmente explosivo. E, sim, é importante que Joaquin Phoenix se consagre em um filme popular, sem abdicar de seus métodos.

O fato é que Pantera Negra e Coringa vão dominar as salas de cinema de todo o Brasil, com um sistema de distribuição no mínimo excludente. Não fossem as sete indicações ao Oscar, Três Anúncios para Um Crime sequer continuaria em cartaz em apenas uma sala de exibição em Goiânia, em apenas um horário. O que chega a ser uma afronta.

Mais do que uma história policial com desfecho redondo, o filme com Frances McDormand, Woody Harrelson e Sam Rockwell, sobre violência física e psicológica, mostra sentimentos devastados de pessoas que não se entregam à autocomiseração e tiram força das vísceras para levantar o corpo da cama no dia seguinte. Forte e brutal.

Este texto também foi publicado no site da Interativa.

Publicado em Sem categoria | Deixe um comentário