20 anos de blues

André Mols deu um pulinho na Austrália e aprontou um rebuliço por lá. André Mols é guitarrista da The Not Yet Famous Blues Band, mais longeva banda de blues da cidade, que, em 2007, teve o nome simplificado para TNY. A história na Austrália começou em fevereiro. André recebeu o convite de um ex-aluno de inglês para ajudá-lo na administração de um negócio de comércio internacional de carne em Brisbane, na terra dos cangurus. Ele topou com uma condição. “Eu quero tocar blues aí”, disse a ele.

A primeira estada foi até o mês de abril. Cauteloso, André deixou mulher e três filhos em Goiânia para avaliar a proposta no local. Ele ainda não sabe se o negócio da carne vai dar certo, mas o negócio do blues rendeu. “Toquei em jams, todas as semanas, em vários lugares. É muito fácil fazer amizade na Austrália”, diz ele. “O povo é muito simples.” Jams são sessões de improviso. Jam significa jazz after midnight ou jazz depois da meia-noite. Horário em que os músicos tocam pelo prazer, livres das regras.

André conta que o estilo tradicional do blues de Chicago predomina nos arredores de Brisbane. O blues dos anos 50, com gaita. Ele acredita que, por isso, fez sucesso e estardalhaço, ao exibir a musculatura de um blues rock texano. “Depois de mim, o The Hi Fi, a melhor casa de espetáculos da área, vai receber um show de blues rock, com o americano Robben Ford.” Segundo ele, a região metropolitana espraia-se numa faixa litorânea com 100 km de povoados ao norte e ao sul. “Nesta faixa, existem uns 40 lugares para tocar, dos endereços de primeira linha, com som de última geração, até juke joints com capacidade para 50 pessoas, sem estrutura nenhuma.” A melhor tradução para juke joint é espelunca.

A segunda viagem de André, maior, foi de maio ao começo de agosto. Nesse período, deu pra conferir shows de John Bonamassa, guitarrista do Black Country Communion, banda do Glenn Hughes, ex-baixista do Deep Purple, do Uriah Heep, com Mick Box na guitarra, e de Slash, que agitou no Guns N´Roses. Naturalmente, ele refez o circuito de apresentações, com direito a cena de cinema. “Eles valorizam quem sabe tocar. Na primeira jam, coloquei meu nome numa lista que serve de referência para montagem de bandas, que são escolhidas na hora e tocam três músicas. Como ninguém me conhecia, fiquei para o final, com quem sobrou. Depois da primeira música, todos queriam tocar junto comigo”, ele ri.

Comemoração
André ficou sócio da Blues Association of South East Queensland, entidade que promove as jams semanais e eventos mensais um pouco maiores. A entidade é filiada a The Blues Foundation, nos Estados Unidos. Todo ano, a Blues Association escolhe sete artistas, através de seletivas, para representar a Austrália no International Blues Challenge. O festival, produzido pela Blues Foundation, reúne centenas de músicos de todas as partes do mundo para reverenciar o blues, fora as pratas da casa. Em 2012, o Blues Challenge vai de 31 de janeiro a 4 de fevereiro, em Memphis, no Tennessee. “Eu fui convidado para a seletiva, no dia 13 de agosto”, conta André, orgulhoso.

Mas ele retirou sua participação porque voltou antes para o Brasil. Um goiano tocando blues nos Estados Unidos sob a bandeira australiana seria curioso. “Se estivesse com a banda completa, faria um arregaço”, ele supõe. “Nossas composições são diferentes, temos um toque de latinidade e, como as letras são em inglês, eles entendem, o que faz a diferença.” A TNY, falando nisso, vai completar 20 anos em 2012. O plano é lançar um disco de inéditas, o oitavo da carreira, e um DVD. “Queria gravar em Brisbane, com Peter Blyton, que foi produtor do Elton John e técnico de som nas jams.” Depois de Renato Marra e Pê Ribeiro, Carlos Foca é o atual baixista da banda, que tem Wagner Calil firme na bateria.

Outro diferencial de André por lá é a guitarra de produção goiana, marca Bosco, feita pelo luthier Pedro Lúcio, que tocou no Mr. Gyn. “Fantástica, maravilhosa, uma das melhores que usei na minha vida”, elogia. É com ela que André se prepara para viajar, desta vez, para o encontro anual da família, dia 15 de outubro, na Bélgica. “Minha mãe é belga e meu pai é de Araguari”, diz ele. Como o blues é forte na cena do Benelux, Bélgica, Holanda e Luxemburgo, ele organiza apresentações em bares do circuito e de Paris. Nada mal para quem começou tocando rock de garagem no Frenesi Precoce, de 1986 a 1991, enquanto Renato e Wagner se dedicavam ao 17º Sexo.

O guitarrista texano Stevie Ray Vaughan o fez mudar de estilo. O primeiro disco do Stevie que ele ouviu, Texas Flood, na casa de um amigo, foi determinante. “Depois do Live Alive, comprei todos os LPs dele. Passei três anos ouvindo blues para entender a sonoridade. Aprendi tudo de ouvido, catando nota”, conta. Aprendeu tão bem que a TNY subiu ao palco do Grammy Latino de 2005, em Los Angeles, na festa VIP, depois da entrega dos prêmios, para 2 mil convidados, de Jorge Benjor a Jennifer Lopez. Um ano antes, a banda abriu o show do Deep Purple em Goiânia. Ou seja, não faltam motivos para comemorar. Antes que o André mude-se, de uma vez, para a Austrália.

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