Era uma vez o blues

TNY lança Rocking Horse hoje, às 22 horas, no Bolshoi Pub. A banda surgiu como The Not Yet Famous Blues Band há 20 anos, a partir das cinzas do Frenesi Precoce. O primeiro disco, gravado em 1997, trazia acordes emprestados do blues americano do Texas. Seguiram-se Blues and Beyond, Trio, Live Famous… The Not Yet (ao vivo no Martim Cererê), N.O.S New Old Stock, Círculo e Sete, o primeiro em português.

It´s my Time, primeira faixa de Rocking Horse, anuncia uma guinada da TNY em seu oitavo CD. Não seria correto afirmar que a banda evoluiu ou regrediu. Ela mudou o direcionamento, do blues e do blues rock, para um rock encharcado de psicodelia. A passagem da primeira para a segunda faixa, And If…, sem interrupção, mas com mudança de andamento, sugere a respiração de uma suíte, que dá a ideia de conjunto e unidade, de um tema dominante em todas as faixas.

O encerramento com It´s my Time (Double Drums Version) intensifica a impressão, como um ponto infinito ou circular que remete ao começo. As ilustrações do encarte e da capa, de Caius Augustus, também contam uma história inspirada em lendas celtas ou medievais. O power trio, André Mols (guitarra, violão, vocal), Carlos Foca (baixo) e Fred Valle (bateria), atua com economia e consistência, sem firulas.

A base coesa é pista de decolagem para os solos de guitarra. Jimi Hendrix, mais do que Stevie Ray Vaughan, surge no horizonte como influência de André. Os riffs solidamente calcados nos anos 1970 fazem de Rocking Horse um genuíno disco de rock clássico e tradicional, que se apropria das lições deixadas por heróis do passado com a intenção de brilhar no presente. Não há outra maneira de louvar a intenção senão ressaltando a habilidade de André com as guitarras Bosco.

Valores que tiveram a estrutura garantida e respeitada pela mixagem de Dênio de Paula, da Tambor Produções. Não por acaso mais um grande guitarrista que bebe nas mesmas fontes criativas. A produção da TNY prima por convicções desprezadas por quem declarou a decadência dos solos de guitarra. Os mesmos, quem sabe, que vão vibrar de olhos fechados nos shows do Black Keys e do Alabama Shakes no festival Lollapalloza.

É fundamental alardear que o conceito de suíte perseguido em Rocking Horse fez um bem danado ao André. Enquanto Foca e Fred pulsam firmes, André alterna a ambientação entre riffs poderosos, solos velozes e dedilhados mais calmos e contemplativos. Mostra versatilidade numa linguagem distante do blues de raiz. Se Hendrix aparece com força no começo, na metade do disco, Lovebird reflete uma sonoridade contemporânea.

Em All of Me, a voz ganha importância com uma interpretação que André não tinha alcançado antes com tanta qualidade. Há um cuidado especial neste ponto, que a maioria dos roqueiros, por considerar o berro gutural sinônimo de força e garra necessárias a um tipo qualquer de atitude, deixa passar em desalinho. Não que o vocal de André seja perfeito, não é. Mas é louvável o esforço para melhorar no quesito. Em Rocking Horse, o vocal soa bacana. Assim como as letras estão mais buriladas, em inglês por uma questão de estilo e para atingir mercados mais amplos.

Gravado em três dias de maio de 2012 no Up Music, Rocking Horse tem cara de um disco pensado, ensaiado e vivido por seus criadores muito tempo antes da entrada no estúdio. É um disco para roqueiros de boa procedência discutir filiações e cruzamentos. Um doce para quem cravar nos primeiros segundos de que ramo foi extraído o fruto maduro que deu origem à excepcional balada It´s Because of You, recheada de violões.

Outro detalhe interessante é a série de vinhetas instrumentais entre faixas longas. Além de ser impossível não associar Black Diamonds ao The Who. Os sete títulos gravados pela TNY foram tubos de ensaio para a banda chegar a Rocking Horse. Mais do que um clássico, um disco de classe. A TNY mostrou como é que se faz. Se bem que as reprises, depois da viagem acústica de You Found Me, poderiam ter sido dispensadas na contagem final das 18 faixas.

TNY
lançamento de Rocking Horse
Quando:
Quinta-Feira, 21 de Março
Onde: Bolshoi Pub (Rua T-53, 1140. St. Bueno. Fone: 3241-0731)
Horário: 22 horas
Ingresso: R$ 30 (antecipado)

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