O homem do baixo

Ricardo Gaspa foi baixista do Ira! nos dias de luta, em todos os sentidos. Luta pelo sucesso que, uma vez alcançado, provocou mudanças de comportamento. Quando Invisível DJ, o último CD, foi lançado, a banda não se aturava no palco. Conflitos internos decretaram o esfacelamento do Ira! em 2007, em condições lamentáveis. Gaspa deixou seu registro nos 13 discos do quarteto, desde 1985. Cinco anos depois, ele reaparece com um trabalho solo, The Bass Player, pelo selo Polytheme Pam.

Gaspa abraça um contrabaixo acústico, na capa, diante de uma locomotiva. E explica: “o baixo é a locomotiva que puxa o ritmo. É o burro de carga que carrega a banda.” Quanto ao formato acústico, diz apenas que foi uma retomada. “Era o que eu tocava antes do Ira!. A partir dos anos 1980, fiquei no baixo elétrico. Agora, voltei às origens.” No ano 2000, Gaspa lançou um disco de surf music, instrumental, com a banda Alquimistas. Mais tarde, assumiu o rockabilly com Gaspa & Os Alquimistas.

Surf music e rockabilly estão presentes em Bass Player. Assim como o blues. Cortesia dos produtores, Edu Gomes e Netto Rockefeller, que também são guitarristas. A banda se completa, no estúdio, com Adriano Grineberg (piano), Sandro Grineberg e Bruno Marques (bateria, em faixas alternadas). As canções, banhadas pelos estilos, não são definidas por um único padrão. Híbridas, contêm elementos de rock e pop, num apanhado das preferências do Gaspa. Que liberou a sonoridade das guitarras.

“Só tinha feras do meu lado. O Edu deixou a decisão nas minhas mãos. Acabei tirando um pouco do que eles gravaram”, conta o baixista. Antigamente, as gravadoras exigiam um CD com, no mínimo, 13 faixas. Bass Player, econômico, tem 10. “Não quis ter muito trabalho”, Gaspa confessa. “Gravei o disco sem pretensão. Nada a ver com gravadoras. É uma loucura minha. E, para mim, está de bom tamanho.” A preocupação dele, agora, é montar o show, que tem que ser maior do que o tempo do CD.

Um dos maiores atrativos de Bass Player é a variedade de vocalistas. “Não queria centralizar num cara só. Como num show, o disco é uma festa, informal. Para a festa ser boa, quanto mais gente, melhor”, define. As 10 faixas foram divididas entre cinco convidados. O mais festejado é o baiano Marcelo Nova, que foi do Camisa de Vênus. “Queria gravar Simca Chambord. Marcelo me disse que essa era muito batida. Ele tinha músicas melhores.” A eleita, na mesma pegada saudosista, foi Outubro de 65.

Marcelo também deixou a voz em Tanto Quanto Eu, de Gaspa e Edgard Scandurra. Do gaúcho Wander Wildner, que foi dos Replicantes, o Ira! gravou Bebendo Vinho, no disco Isso é Amor, de 1999. Em Bass Player, Wander ofereceu, dele, Eu Não Consigo ser Feliz o Tempo Inteiro, e participou de O Tolo dos Tolos, de Gaspa e Scandurra. O paulista Ricardo Alpendre, da banda Tomada, marcou presença em Sobre o Outono, parceria dele com Gaspa e Ricardo Cunha, e Rosa dos Ventos, de Gaspa e Cunha.

E aqui temos mais uma característica do disco. Nele, Gaspa se mostra como compositor. “Eu não sou muito bom com as palavras”, concede, para justificar grande parte das parcerias com o letrista Scandurra. Ciganos e Mistério contam com o mineiro Flávio Landau, irmão de Rogério Flausino, no vocal. Flávio colabora em Tudo de Mim, que é uma das faixas dedicadas à paulista Karol Sun. Ela responde por um dos melhores momentos de Bass Player, a regravação de Tarde Vazia, hit absoluto do Ira!.

A pergunta que não quer calar é sobre um possível retorno da banda. “Repita a pergunta daqui a cinco anos”, Gaspa rebate. “Todos estão contentes com o que estão fazendo, sentindo prazer. Prefiro encontrá-los num churrasco, para dar risada e contar histórias, do que no palco, para reviver o sofrimento dos últimos dias.” Ele diz que passou os olhos pela biografia, recém lançada, do Nasi, e não viu nada que o desabonasse. “Acho que ele falou sobre o que aconteceu, relatou os fatos e não foi sensacionalista.” Gaspa começou a tocar baixo aos 15 anos de idade. Aos 54, comemora a perseverança.

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