Salada musical nordestina

Bruno Souto é vocalista da banda Volver. Os três discos do quinteto pernambucano, Canções Perdidas num Canto Qualquer (2005), Acima da Chuva (2008) e Próxima Estação (2011), podem ser ouvidos e baixados no site oficial. O terceiro entrou na lista dos melhores de 2012 da revista Rolling Stone. Estado de Nuvem, primeiro solo de Bruno, também pode ser ouvido e baixado no site do cantor.

A cara feia do Bruno causa boa figura na capa pelo contraste do branco imaculado com o volume dos cabelos, da barba e dos óculos escuros. A foto de Rafael Kent está inserida no projeto gráfico de Saulo Amaral. Bruno produziu Estado de Nuvem com Regis Damasceno, do Cidadão Instigado e da banda de Marcelo Jeneci. Ambos tocam guitarra num quarteto formado por Augusto Passos (baixo) e Thiago Nistal (bateria).

João Eduardo Vasconcelos, produtor na faixa Se Você Quiser, participa nos teclados, efeitos e sintetizadores. Ricardo Prado (clavinete, teclados), Guizado (trompete), Tércio Guimarães (sax), Doug Bone (trombone), Julia Valiengo, Fábio Góes e Luz Marina (vocais) contribuem em alguns momentos. Gravado, mixado e masterizado em São Paulo, de março a julho, Estado de Nuvem tem um DNA nordestino.

Bruno se apropria e transfigura a música brega num estilo próprio. Nove das dez canções do CD são de sua autoria. Se Você Quiser é de Vasconcelos, parceiro de Bruno em Cansaço e Por Quê ?. Antes de Ser é de Bruno e Zé Gleisson. O romantismo, em Estado de Nuvem, reina no idílio a dois, nas discussões e nas separações. Mas o brega é usado com elementos cosmopolitas.

Não existe a intenção de fazer paródia. Bruno pesquisa referências numa tradição arraigada, mas processa a informação numa musicalidade contemporânea. Os teclados e certas vocalizações reverentes não tripudiam, antes prestam homenagem aos artistas populares da zona do meretrício. Cansaço, por exemplo, introduz o reggae no caldo de cultura do cabaré, que pode estar numa esquina de Amsterdam.

Eu e o Verão é um passeio na praça, comendo saquinhos de pipoca. Se Você Quiser, na metade do CD, mostra que Bruno tem qualidades como intérprete. O ambiente de intimidade partida não provoca uma dor incurável no cotovelo e se transforma numa sentida canção de amor quebrado.

Aurora tem a ver com bailinhos de periferia, num soul de passos marcados. A presença de Damasceno deixa a impressão de que Bruno segue as pegadas de Fernando Catatau no Método Tufo de Experiências (2005), disco que imprime o brega nas viagens do Pink Floyd. Se, em Avesso, o brega de Bruno tangencia o psicodelismo, a rota está traçada.

Pós-moderno a ponto de evocar Burt Bacharach em Por Quê? e o pop inglês em Dance, sem virar as costas para Fernando Mendes e Alípio Martins, Bruno prova que tem personalidade e que para estar apaixonado é preciso usar uma camisa aberta no peito.

Um passo adiante
Bonito de um modo diferente, Vazio Tropical é de outro barbudo, o alagoano Wado, veterano elogiado em meia dúzia de produções independentes. Vazio Tropical, realizado com apoio do Festival Música pra Todo Mundo, organizado por uma empresa de telefonia móvel, tem potencial para levar o nome de Wado à audiências maiores.

Especialmente porque ele chega ao lado de Marcelo Camelo e Cícero. O primeiro como produtor, junto com Fred Ferreira, baterista das bandas portuguesas Buraka Som Sistema e Orelha Negra. O segundo como parceiro em Rosa, Canto dos Insetos e Zelo. Cantos dos Insetos também foi feita com Momo, autor de Flores do Bem e parceiro de Wado em Tão Feliz.

Wado esmerou-se em parcerias. Carne é dele com Gonzalo Deniz. Quarto Sem Porta é dele com Júnior Almeida. Vitor Peixoto assina Primavera Árabe e Vazio Tropical (instrumental) com Wado. E Adalberto Rabello Filho divide Cais Abandonado com ele. Wado, sozinho, concebeu Cidade Grande.

Produtores e parceiros, convidados como Mallu Magalhães, mulher de Camelo, fazem de Vazio Tropical uma superprodução dos meios alternativos. Gravado entre Rio de Janeiro, Maceió e Lisboa, o CD foi masterizado por Felipe Tichauer em Miami. Tichauer masterizou de Stevie Wonder a Cristina Aguilera. Se Wado não virar estrela agora, terá um belo trabalho no currículo.

Vazio Tropical não gera o impacto imediato de outros discos do compositor. Ele revela detalhes em repetidas audições, tem ingredientes duráveis e pode chegar mais longe. É nele que Wado se afirma como voz a ser considerada sobre o letrista inspirado. É o que segue por uma via introspectiva e melancólica (influência de Camelo?), lenta e crepuscular. Mas, graças aos deuses da poesia, não se perde em lamúrias. O disco está disponível para download no site do artista.

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