Nas asas do passado

O que fazer quando o sonho acaba? Buscar mais na padaria ou despertar para a dura realidade. Mesmo sendo Paul McCartney? As opções não são muito diferentes para todos os mortais. Ou você segue em frente com as forças que restaram ou fica sentado à beira do caminho, chorando as mágoas.

Paul tinha direito a um ano sabático, depois da implosão dos Beatles em 1970. Poderia passar o resto da vida em sua mansão, contando dinheiro, montando quebra-cabeças, cuidando do jardim ou dando tiros em aparelhos de TV. Mas ainda era jovem e cheio de energia. John Lennon encontrava-se em plena ebulição. George Harrison, finalmente, alçara voo longe da tutela dos dois. E Ringo Starr, bem, quem se importa com Ringo?

Depois de perder tempo trocando farpas com Lennon e ruminando rancores através da música (um filme legal sobre o assunto é Tudo Entre Nós, de Michael Lindsay-Hogg, mesmo diretor de Let it Be), Paul decidiu passar para outro nível. Se Lennon tinha Yoko Ono para fomentar sua criatividade com fatores exóticos e místicos, Paul tinha seu casamento com a americana Linda Eastman, herdeira do império Kodak (o império faliu na era das máquinas fotográficas digitais, mas isso não vem ao caso).

O que havia de comum entre as duas é que ninguém as levava a sério como artistas. Yoko transitava na área com mais desenvoltura e a fama de bruxa malvada que provocou a ruptura entre os amigos contava pontos na lenda. Linda era loira. Lennon permitiu ser influenciado pela personalidade extravagante de Yoko. Os resultados contam a história de diversas maneiras, dividindo a torcida em pró e contra Yoko. Se Linda exerceu influência sobre a produção criativa de Paul é algo a ser estudado.

Na banda que formou depois dos primeiros álbuns solos, McCartney (1970) e Ram (1971), Linda tocava teclados e arriscava uns vocais de apoio. O principal parceiro de Paul no Wings, que veio ao mundo com Wild Life (1971), era Denny Laine, guitarrista do Moody Blues, banda inglesa de rock progressivo. Denny Seiwell completava a formação na bateria. Paul, Linda e Laine mantiveram-se unidos. A tripulação flutuou ao longo dos anos. Wings durou até Back to the Egg (1979), uma despedida melancólica.

Esse período foi preenchido por nove discos. Entre os quais, uma obra-prima, Band on the Run (1973). A capa, icônica, reúne celebridades como fugitivos da prisão. O jornalista Michael Parkinson, o cantor Kenny Lynch, o ator James Coburn, o cozinheiro Clement Freud, o maior Drácula do cinema, Christopher Lee, e o boxeador de Liverpool, campeão mundial dos pesos leves na década de 1960, John Contech. Além do trio parada dura. Não é um primor de cultura inútil citar o nome dos caras?

No mesmo ano, Lennon lançou Mind Games e Harrison, Living in the Material World. O que nos leva, três anos depois, a Wings Over America. O projeto megalomaníaco de Paul retornou este ano, remasterizado. O que era um álbum triplo no tempo do LP (quantos álbuns triplos você conhece?) virou um CD duplo com 28 músicas. O encarte traz as fotos da época (Paul usava mullet). E a capa, desdobrada, mostra a bonita ilustração da banda no palco.

A ilustração externa é a fuselagem do avião desenhada pela Hipgnosis. A empresa de Storm Thorgerson, gênio do design gráfico, foi responsável por capas memoráveis, de Led Zeppelin a Pink Floyd. Thorgerson morreu em abril. A homenagem, portanto, é involuntária, mas pertinente.

Presente para os fãs
O disco foi lançado duas semanas antes do Natal de 1976. As faixas foram selecionadas em 90 horas de gravação durante a turnê pelos Estados Unidos. Paul, Linda e Laine são acompanhados por Jimmy McCulloch (guitarra, violão, baixo), Joe English (bateria), Tony Dorsey (trombone), Howie Casey (saxofone), Steve Howard (trompete) e Thadeus Richard (sax, clarinete, flauta).

A vibração é intensa, nos rocks, nas baladas adoráveis e nas lembranças dos Beatles. Lady Madonna, The Long and Winding Road, Yesterday, Blackbird. Paul, com 34 anos, esbanjava potência vocal. Carisma ele sempre teve. Wings Over America, um dos melhores discos ao vivo da história do rock, tem contornos épicos em sua monumentalidade. Quem puder pagar as edições escalonadas em termos de luxo vai se deparar com mimos de encher os olhos.

Corta. Três décadas passaram num piscar de olhos. Paul, agora, tem 71 anos. Gravou 39 discos depois do Wings (na contagem do site oficial). Linda morreu de câncer em 1998. Ele poderia estar aposentado, mas continua fazendo música. Seu disco novo leva o nome de New. A capa, bem bolada em sua simplicidade, não exibe o nome do artista. As fotos de Paul surgem no miolo e no encarte. Um súbito acesso de modéstia.

New ganha mais uma conotação sobre o disco anterior. Kisses on the Bottom tinha somente regravações de músicas antigas. New tem somente canções novas de Paul. Save Us, Queenie Eye e Road são as únicas parcerias, com Paul Epworth, um dos quatro produtores. Os outros são Mark Ronson, Ethan Johns e Giles Martin. Cada um deles tem um currículo associado a grandes nomes do pop internacional.

Giles chama atenção pelo sobrenome. Ele é filho de George Martin, renomadíssimo produtor da fase alucinada dos Beatles. Giles ajudou o pai a reconfigurar músicas do quarteto sob o figurino do Cirque du Soleil, no espetáculo Love, de 2006. Que rendeu um CD encantador porque os rapazes de Liverpool não perdem a magia.

Paul toca vários instrumentos, ao lado de Rusty Anderson e Brian Ray (guitarras), Abe Laboriel Jr. (bateria) e Paul Wickens (teclados). A banda que viajou o mundo com ele na turnê Out There, que passou por Goiânia em maio. Não tinha como New dar errado. Paul é um artífice invejável. Domina a linguagem do estúdio e do palco. Jamais aceitaria a opinião dos produtores se não tivesse certeza de que iria funcionar dentro da sua concepção. Isso quer dizer que as novidades são relativas.

Para quem ousou tudo nos Beatles, resta manter uma linha de qualidade acima da média sem descaracterizar um perfil que se tornou conservador. As canções trazem ecos da sua juventude, naquele padrão que evita a mesmice sem excessos radicais assim como preserva a identidade sem deixar a impressão de uma volta ao passado. Paul apresenta-se em plena dignidade. Atuante, relevante, charmoso, talentoso como sempre.

Ele ajudou a mudar o mundo uma vez. Não vai fazer isso de novo. Seu papel é transmitir felicidade e, se felicidade é uma palavra forte para o velho Paul, ele ainda consegue transmitir alegria. New é delicioso como um pote de sorvete num dia de calor. Bela façanha que serve de exemplo a outros senhores que poderiam ocupar seu tempo ajudando algumas pessoas a sorrir.

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