Quando o samba é samba é assim

Ninguém deveria perder a oportunidade de prestar atenção em Nilze Carvalho quando ela canta samba. A carioca vai alcançar, em breve, a nobreza de Beth Carvalho e a estatura de Dona Ivone Lara. Nilze Carvalho faz parte do Sururu na Roda. Motivo de sobra para ouvir os sambas do Sururu na Roda.

Os japoneses sabem disso muito bem. Eles lotaram o Kanagawa Prefecture Hall, em Yokohama, em dezembro de 2014, para aplaudir Nilze Carvalho (voz, cavaquinho), Fabiano Salek e Silvio Carvalho (vozes, percussão), na companhia de Hudson Santos (violão), Zé Luiz Maia (baixo), Diego Zangado (bateria) e PC Castilho (flauta, percussão).

Cabe uma piada, com todo respeito, sobre japonês no samba? Dificilmente, um brasileiro ficaria sentado numa apresentação do grupo. Um brasileiro não demoraria a aceitar o convite para levantar ao som de Aquele Abraço, de Gilberto Gil. Uma vez em pé, um brasileiro dificilmente sentaria, com o desfile impecável do Sururu na Roda.

São 22 músicas no DVD, com Aquarela do Brasil, de Ary Barroso, na abertura e Aquarela Brasileira, de Silas de Oliveira, no encerramento, e 17 no CD. Made in Japan, um título pouco inspirado, peca pela pouca atenção dada à plateia, por não incluir um Extra com a viagem pelo Japão (foram 22 shows em 20 cidades, ao longo de 45 dias) e por demorar a ser lançado. No mais, tudo é irrepreensível.

Até o Sururu na Roda tirando onda em Ano Hini Kaeritai, de Yumi Matsuoya. As harmonias vocais prestam homenagem à era de ouro do rádio e, entre manifestações brasileiras como choro, maxixe e forró, prevalecem os clássicos de todos os tempos. À exceção de Até no Japão, de autoria do trio, que chama os japoneses para a dança. Eles são disciplinados na hora de invadir e na hora de abandonar o palco.

De Trem das Onze, de Adoniran Barbosa, a Mas Que Nada, de Jorge Benjor, cabem João Nogueira, Benito de Paula, Tom Jobim, Baden Powell, Dorival Caymmi, Luiz Gonzaga, Nei Lopes. Aqui, pagode é uma festa e não um apelo romântico de gosto duvidoso. Sensacional.

Quintais, de Clécia Queiroz, é um disco de samba que parece jazz. É notável a preocupação da cantora com a tradição do samba de roda. No jazz, seria o equivalente ao ragtime. No repertório ela contou com a ajuda de seu sobrinho, o historiador Vitor Queiroz. Como no jazz, os arranjos atualizados não perderam a referência

Dudu Reis (cavaquinho, banjo, percussão) e Sebastian Notini (percussão), responsáveis pela produção, dividiram os arranjos com Marcos Bezerra (violão), Bira Monteiro (percussão) e Mário Soares (violino). A formação é temperada por sopros e cordas. Como no jazz, a convivência dos músicos dá uma perspectiva a quem ouve.

A sonoridade compacta é extremamente complexa e elaborada em sua simplicidade. O ritmo das palmas evita o fuzuê de um samba enredo e, numa variação de tambores, deixa cada música respirar numa cadência que é puro suingue na malemolência. O fôlego é interposto por clarinete, flauta, saxofone, trombone e flugelhorn em comentários paralelos, sucintos e marcantes.

O estofo desse arcabouço visita o passado sem nenhum saudosismo e gera uma dimensão original, que supõe uma ética e uma estética desprovidas da tecnologia de última geração. Nobreza, de Roque Ferreira, compositor privilegiado por Clécia Queiroz, oferece o contraste.

A ecologia serve o cenário do passeio que transcorre por uma existência inseparável dos deuses que povoam as matas, suas águas, sua fauna, suas iguarias. A voz de Clécia Queiroz transmite alegria e sugere uma farra dos sentidos. Não chega a ser um exagero afirmar que eu uso Quintais para perfumar a casa. E, como no jazz, ela carrega um dialeto de origem africana que faz cócegas na orelha. Caso de Amurê.

A sabedoria das letras aborda sentimentos profundos em histórias, cantigas e cirandas que valorizam alegorias irresistíveis. Fora com os penduricalhos da soberba. Me Salve de Mim acaba sendo um mantra de feições reveladoras. Meu conselho é que você ouça Quintais com os pés descalços, para fluir a energia entre seu corpo e o universo.

Este texto também foi publicado na Ludovica.

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Uma resposta para Quando o samba é samba é assim

  1. Lêda de Lima Borges Soares disse:

    Como sempre, texto impecável! Conhecimento em altíssimo nível. Coisa de quem sabe do que está escrevendo. Parabéns!

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