Como falar para o seu pai que ele é o cara

Meu pai faz aniversário em junho. Por isso, ele se chama João.  Nome simples, de homem do povo, e nome de santo. São João batizou Jesus. Seu João se casou com a dona Angelina e, do casamento, nasceram quatro filhos. Entre os quais, eu sou o mais velho. Eu também faço aniversário em junho.

Sou 20 e poucos anos mais novo que o meu pai. Sou menos de 20 anos mais novo que a minha mãe. Nasci quando eles eram muito jovens, inexperientes e, no entanto, com a responsabilidade de uma família nas costas. Nasci no interior de São Paulo, como todos os meus irmãos. Nem todos no mesmo lugar.

Meu pai era nômade. Fez-se profissional, sem curso, sem escola, na construção pesada de barragens, hidrelétricas, estradas. Corria trecho, como se dizia na época. Corria atrás do trabalho, do emprego, do que lhe arrumassem, com as bocas aumentando em casa. Como passarinhos, querendo comida.

Moramos em vários endereços paulistas. Lembro da boiada que passava levantando poeira em Iacanga. Do muro alto que servia para roubar frutas das árvores do quintal do vizinho em Jacareí. Dos vagões de trem abandonados no terreno atrás da rua sem saída em Jundiaí. Do movimento caótico de Osasco, que já era uma aventura grande.

Moramos no Pará e moramos no Rio Grande do Sul. Mudávamos de casa, às vezes no mesmo bairro, quando não mudávamos de cidade. Nunca morei tanto tempo em um único CEP como em Goiânia. Hoje, sou eu que preciso correr atrás das minhas responsabilidades, junto com a minha mulher, para manter a nossa família.

Hoje eu também sou pai e sei o quanto pesa a construção de um destino. Compreendo, somente hoje, os medos que o meu pai sofreu. No tempo em que ele sentiu insegurança e desespero, nós sentíamos a confiança de saber que ele daria um jeito nas coisas.

Eu não sei exatamente como tudo deu certo, mas dentro das nossas circunstâncias remediadas, cada filho cresceu do seu jeito e se vira como pode na intenção de ser feliz. Então, quando chega o aniversário do meu pai (e mais tarde, em outubro, da minha mãe), mais do que desejar parabéns, é hora de conter um soluço para dizer obrigado.

Eu não sei o que teria sido de mim sem vocês. Juro.

Este texto também foi publicado no site da Interativa.

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