Como cultivar a boa memória

O primeiro disco da minha vida foi um compacto duplo de Elvis Presley. Duplo porque tinha quatro músicas, duas de cada lado. Compacto porque era um disquinho de vinil, menor do que um LP, maior do que um CD. Ainda lembro do repertório, três rocks e uma balada: Jailhouse Rock, Hound Dog, Heatbreak Hotel e Love Me Tender.

O disco veio encartado no primeiro número da revista Rock Espetacular, da Rio Gráfica Editora. Ela custou 25 cruzeiros, no ano distante de 1976. Tinha um desenho dos Beatles na capa, na fase do Sgt. Peppers. O segundo número veio com os Rolling Stones e o terceiro, com Elton John. No tempo em que ele se fantasiava de personagem maluco.

O editor de texto era Luiz Carlos Maciel, que escreveu no Pasquim, um dos jornalistas brasileiros mais combativos do movimento hippie e da contracultura. No final da revista, tinha o anúncio da calça jeans US Top, com a cifra para violão do jingle que tocava no comercial da TV. Caso para ser estudado em faculdades de publicidade.

Quem tem mais de 40 anos se lembra: “liberdade é uma calça velha, azul e desbotada, que você pode usar do jeito que quiser, não usa quem não quer.” Que me leva a pensar num comercial da Calvin Klein, de 1983, censurado na época, em que um rapaz dizia que queria ser um vagabundo (“aquele que não taí com nada, mas tá com tudo”).

Não se iludam com minha memória. Eu esqueço tudo com facilidade. Até para seguir o conselho de Sérgio Augusto de Andrade: “a ignorância pode ser uma forma de saúde e a omissão, um tipo de ecologia. Já sabemos, seja como for, muito – e sobre possivelmente mais do que deveríamos. Chegou a hora de começarmos a nos dedicar a ignorar.”

Os detalhes da Rock Espetacular são claros porque, em 2012, quando a banda de Mick Jagger e Keith Richards completou 50 anos de carreira, eu entrevistei o amigo e professor Fábio Sabbath, um emérito colecionador de discos, LPs e CDs, além de livros e revistas. A casa do Fábio é um sebo, um arquivo e um museu de rock clássico.

No meio da conversa, falei sobre o primeiro disco da minha vida. Por acaso, ele tinha um exemplar da revista no armário. Generoso, Fábio me deu a revista de presente. Ela está aqui, agora, na minha frente. Muito bem conservada. O disco, meu irmão caçula, Marcelo, quebrou, não sei mais onde, porque nós discutimos. Não lembro mais porquê.

Este texto também foi publicado no site da Interativa.

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