Como salvar a pele do seu filho?

“Charlie Gard morreu hoje, aos 11 meses. Ele nasceu com Síndrome de Miopatia Mitocondrial, que provoca perda muscular e danos cerebrais. Os pais queriam levá-lo, da Inglaterra, para um tratamento nos EUA. A Justiça não permitiu. Depois, tentaram fazer com que ele morresse em casa. Os aparelhos foram desligados numa clínica.”

Esta foi a nota que escrevi, sobre a morte do pequeno Charlie, para o DQD de sexta-feira, 28. O DQD de sexta pretende ser um pouco mais leve. Falamos de assuntos pesados e polêmicos a semana inteira. Sexta, pela proximidade com o fim de semana, é dia de uma necessária despressurização. Dia para dar uma relaxada, uma descontraída.

Talvez por isso, depois da leitura, na frente de um quadro tão triste e acabrunhante, tenhamos ficado calados e consternados. O silêncio tem muito a dizer, mas como não pode haver silêncio em rádio, mudamos de assunto. Fiquei pensando, mais tarde, no que poderia ser dito. O DQD chega ao fim na Interativa, mas continua na minha cabeça.

Independente das questões legais que, no final das contas, levaram a história do pequeno Charlie para todas as partes do mundo, pulsam as questões existenciais e urgentes. O pequeno Charlie não completou um ano de vida. A maior parte desse período foi no hospital, ligado a aparelhos, imagino, dolorosos e angustiantes.

Teria ele consciência de alguma coisa? Bem, os pais tinham consciência do estado de saúde do pequeno Charlie e não deixaram de lutar por ele. Como, nesse momento, há pais lutando por seus filhos em hospitais mais e menos sofisticados. O pequeno Arthur, baleado no ventre da mãe, tentou sobreviver por um mês numa UTI do Rio de Janeiro.

Desconheço amor mais incondicional do que o amor dos pais por seus filhos. Não importa, de fato, o que aconteça, estaremos sempre dispostos a defender nossas crias com unhas e dentes, garras e fibras. Até contra a morte. Mesmo que a morte, sempre mais forte, seja implacável, como a da pequena Júlia, neste fim de semana em Goiânia.

A passagem do pequeno Charlie e o sofrimento de quem lhe deu a vida nos lembram como somos frágeis, como somos pequenos e impotentes, como somos arrogantes em nossa ilusão de permanência e continuidade. Voltem em paz ao colo do Pai e da Mãe, pequenos Charlies. Obrigado por terem vindo. Desculpem nosso imenso mau jeito.

Este texto também foi publicado no site da Interativa.

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