Como ouvir Belchior de novo

Amelinha gravou 10 músicas de Belchior no disco De Primeira Grandeza. A primeira pergunta é sobre a escolha do repertório. Não deve ter sido fácil pincelar uma dezena de canções de um universo tão representativo. Facilidade seria pegar somente os maiores sucessos. Neste ponto, Amelinha deixou de lado alguns títulos emblemáticos.

A segunda pergunta é uma deselegância. Não parece oportunista a decisão de homenagear Belchior tão cedo? A resposta pode ser um dar de ombros. Deixe que digam, que pensem, que falem. Amelinha explica, no encarte, que Belchior escreveu De Primeira Grandeza para a voz dela.

Nada mais justo que a faixa título puxe o fio da meada do amigo que partiu de maneira prematura. A letra, além do mais, diz: “quando eu estou sob as luzes/ não tenho medo de nada”. Ok, entendido. Passemos à sonoridade.

Ao lado do produtor Thiago Marques Luiz, a cantora optou por um quarteto: Estevan Sincovitz (baixo, guitarra, violão, bandolim), Caio Lopes (bateria), Ricardo Prado (piano, teclados, baixo, acordeon, viola) e Fabá Jimenéz (guitarra, violão).

O encontro no estúdio Canto da Coruja, em Piracicaba, interior de São Paulo, foi breve. Tudo gravado ao vivo em quatro dias de agosto. Sob um clima de blues árido e latejante, do tipo que causa dor. O disco da Amelinha não poupa o ouvinte do contato com sentimentos agudos e ásperos.

“Estou aqui parado olhando o incêndio/ do alto do prédio os rolos de fumaça”, ela canta em Incêndio, que não é das mais conhecidas de Belchior. O trauma do compositor consiste em subverter o cotidiano pelo viés poético do desespero. Como quem faz o alerta constante: “como vocês conseguem levar a vida desse jeito sonâmbulo?”

A voz de Amelinha traduz a maturidade de quem não espera seduzir pelo malabarismo, mas pela contenção da emoção que ameaça transbordar a todo momento. Com que outra espécie de loucura ela poderia bradar, em A Palo Seco, que espera que esse canto torto feito faca corte a carne de vocês? Porque não é simples resistir ao apelo de Mucuripe.

De Primeira Grandeza é um trabalho triste. Pelo desaparecimento de Belchior. Pela resistência de Amelinha, que sempre correu pela raia mais distante. Pelos versos que denotam uma visão utópica da existência. Pelos arranjos que parecem saídos de um filme andarilho e poeirento de Wim Wenders.

Ao mesmo tempo é um disco belo e corajoso. Amelinha confrontou a saudade para nos entregar versões que têm um lugar reservado no cancioneiro de Belchior. Por uma originalidade conceitual que dá unidade ao múltiplo denominador.

Este texto também foi publicado no site da Interativa.

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