Como ler jornal hoje em dia

O nome do filme novo de Steven Spielberg, The Post, é uma ironia com as postagens e compostagens da internet. The Post é do jornal The Washington Post, o que aumenta a dose da ironia em dois dedos, se pensarmos nas estripulias que o presidente Donald Trump costuma aprontar no Twitter. Ou seja, Spielberg fala de ontem para falar de hoje.

The Post se passa na década de 1970, quando os jornais circulavam em papel impresso, as notícias eram datilografadas e as ligações telefônicas tinham que ser discadas. Muita coisa mudou de lá para cá e muita coisa continua praticamente igual. A proximidade da cúpula da imprensa com a cúpula do poder, por exemplo. Assunto discutido no filme.

O centro da questão é a publicação de um estudo secreto do governo americano que dava como certa a derrota do exército na guerra do Vietnã, os Pentagon Papers, embora a opinião pública fosse ludibriada com um otimismo suicida na contramão da realidade. Pense agora na maneira como os Panama Papers foram divulgados para todo o mundo.

Fontes que vazam informações que não são convencionais continuam em evidência. O New York Times foi o primeiro a dar importância aos documentos que o governo queria preservar e pagou caro por isso, com ações na Justiça. The Washington Post entrou na briga mais tarde, graças a Kay Graham (Meryl Streep) e Ben Bradlee (Tom Hanks).

Ela toma conta da empresa depois que o marido cometeu suicídio. Não pediu por isso, mas tem que lidar com as consequências. Socialite de família bem relacionada, Graham vai da insegurança à mais absoluta certeza no caráter de suas decisões com a categoria de uma atriz que concorre ao Oscar pela vigésima-primeira vez. É o poder feminino.

Lembrando que Meryl Streep andou batendo boca com Donald Trump em mais de uma ocasião. Bradlee, o editor-chefe do jornal, sonha com a oportunidade de fazer com que seu veículo ultrapasse o alcance provinciano. No momento em que ações são vendidas na bolsa de valores, na tentativa de melhorar a situação financeira capenga do negócio.

O primeiro impasse é a relação entre o lado empresarial e o lado profissional. Até que ponto um interfere na dimensão do outro. Considerando que o presidente da época, Richard Nixon, usaria expedientes escandalosos para salvar as aparências. O segundo impasse, ligado à jurisdição americana, tem a ver com a liberdade de expressão.

The Post termina em uma alusão ao caso Watergate, que custou a renúncia de Nixon e que também foi investigado pelo jornal, o que pode ser visto em Todos os Homens do Presidente, de Alan J. Pakula. Ele fecha uma dobradinha recente com Spotlight, de Tom McCarthy, em 2015, sobre jornalistas que investigaram os padres pedófilos de Boston.

Ou seja, no auge das chamadas fake news, temos igualmente uma defesa do jornalismo feito com seriedade e compromisso, ameaçado por riscos inerentes aos seus propósitos.

Este texto também foi publicado no site da Interativa.

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