Como sair do cinema abalado

Duas notícias cinematográficas chamaram minha atenção, na semana passada. A primeira sobre o filme do Pantera Negra, com estreia marcada para quinta-feira. A segunda sobre o filme do Coringa, sem lançamento marcado. Um herói politicamente correto e um vilão alucinadamente incorreto. Similares e distantes ao mesmo tempo.

O primeiro ganhou a estatura de Chadwick Boseman. O segundo, ao que tudo indica, ficará nas mãos de Joaquin Phoenix. São convites praticamente irrecusáveis para uma sessão da tarde. Embora minha paciência com super-heróis diminua a cada novo título.

Parece que estamos condenados a esse tipo de ação desenfreada e parece que os intervalos são preenchidos por desenhos animados. Afinal, precisamos levar as crianças ao cinema. Os filmes adultos correm por fora, como azarões. O exemplo perfeito do que digo é Três Anúncios para Um Crime, de Martin McDonagh. Vamos voltar ao começo.

É importante que Pantera Negra seja bem sucedido nas bilheterias, no momento em que o primeiro presidente negro dos Estados Unidos é substituído por um presidente branco que dá sinais de apoio aos arianos truculentos, nos conflitos raciais de Charlottsville.

É importante que as guerreiras do príncipe T’Challa sejam mulheres negras, no momento em que as denúncias de assédio sexual são discutidas no café da manhã e em que as mulheres pedem valorização artística e equiparação salarial em Hollywood, lembrando que as mulheres negras são menos valorizadas que as mulheres brancas.

Também é importante destinar um vilão iconoclasta como o Coringa à composição de um ator que não se rende ao tratamento vulgar e que busca desafios na carreira. Uma pena que o roteirista Scott Silver e o diretor Todd Phillips, dotados de filmografias de comédias ralas, não sejam exatamente promissores no que diz respeito ao personagem.

Heath Ledger, mais do que Jack Nicholson e o intragável Jared Leto, deu-nos mostras do quanto o Coringa pode mexer com o estabelecido e bagunçar o coreto da verdade, mostrando realidades paralelas com humor literalmente explosivo. E, sim, é importante que Joaquin Phoenix se consagre em um filme popular, sem abdicar de seus métodos.

O fato é que Pantera Negra e Coringa vão dominar as salas de cinema de todo o Brasil, com um sistema de distribuição no mínimo excludente. Não fossem as sete indicações ao Oscar, Três Anúncios para Um Crime sequer continuaria em cartaz em apenas uma sala de exibição em Goiânia, em apenas um horário. O que chega a ser uma afronta.

Mais do que uma história policial com desfecho redondo, o filme com Frances McDormand, Woody Harrelson e Sam Rockwell, sobre violência física e psicológica, mostra sentimentos devastados de pessoas que não se entregam à autocomiseração e tiram força das vísceras para levantar o corpo da cama no dia seguinte. Forte e brutal.

Este texto também foi publicado no site da Interativa.

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