Como contar histórias curtas

Não escrevi a crônica da semana passada porque meu irmão Beto completou 50 anos de idade e Adriana e eu completamos 24 anos de casamento. Comemoramos com um almoço em casa. Pai e mãe, irmão e irmã, cunhado e sobrinhas. Desligados os celulares, comemos, bebemos, rimos e conversamos. Sem a obrigação da pressa. Algumas pessoas chamam isso de celebrar a vida. Acho que, por isso, não deu vontade de escrever.

Caio nasceu alguns dias depois da morte do pai do Mauro. Emoções extremas com uma proximidade avassaladora. Desculpas fortes para justificar um desequilíbrio emocional. As crianças, por incrível que pareça, demonstraram fisicamente o que os adultos se esforçaram para evitar. Ana Luísa pegou uma virose que a deixou prostrada. Isabela passou mal sem tanta gravidade. Patrícia sentiu com força o chamado da proteção.

Seu João levantava cedo para trabalhar. Dona Angelina levantava cedo também. Ela preparava o café. Da cama, eu ouvia o programa do Zé Béttio no radinho de pilha. “Joga água nele, dona Maria.” E a sonoplastia repetia o barulho da água jogada na cara do preguiçoso. Era engraçado todo santo dia. Como posso negar que as modas de viola de tantas duplas caipiras maravilhosas permanecem imantadas na minha memória afetiva?

Tucuruí era uma cidade perdida na selva amazônica. O centro da vila tinha um comércio com bares e lojas. Foi lá que eu ouvi Led Zeppelin pela primeira vez. Sem saber que era Led Zeppelin. Eu sabia que aquela música que vinha do bar, à tarde, com pouca gente por perto, estava ali para me pegar pelos ombros e dar uma chacoalhada. Eu nunca tive a chance de agradecer ao sujeito que mudou minha vida ao tocar Black Dog nas alturas.

Sonorizar a loja de departamentos significava tocar as músicas preferidas da massa. Até hoje, sou traumatizado com hinos de Natal na harpa. Mas não dava pra pirar, de vez em quando? Subverter a ordem com a surpresa? Trocar o banal pelo extraordinário? Só para ver a reação das pessoas? Mesmo que depois viesse uma bronca do chefe? Mandei Janis Joplin. O telefone tocou. O segurança do estacionamento tinha entrado em frenesi.

Um amigo que gosta de falar me deixa livre para ficar quieto. Eu sou mais de observar do que de emitir opinião. Chega a ser engraçado trabalhar numa rádio. Mas o Jorge exagerou quando começou a me contar uma história no cinema. Eu queria ver o filme do Trinity. Terence Hill e Bud Spencer eram o máximo. Brigavam o tempo todo. Jorge me fez perder duas boas cenas. Mas eu não guardei uma palavra do que ele disse.

Voltávamos para casa à noite. Eu, não sei mais quem e o Geraldo. De repente, do nada, uma turma de moleques da nossa idade partiu pra cima da gente, gritando. Sem mais nem menos. Eu e não sei mais quem saímos correndo. Geraldo ficou. Não para enfrentar os caras. Para contemporizar. Levou um soco na barriga. Eu e não sei mais quem voltamos. Não para enfrentar os caras. Para ajudar o Geraldo. Os valentões nos abandonaram. Eu não estava pronto para brincar de Os Selvagens da Noite.

Este texto também foi publicado no site da Interativa.

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