Pensamento ruim de cabeça

A imagem do estudante agredido por um policial em Goiânia, estampada na capa do CD A Dança dos Não Famosos, do Mundo Livre S/A, lançado pela Monstro Discos, revela um ponto de vista social, uma tomada de posição política e a manipulação da estética da violência. O nome do disco é uma referência ao quadro de um programa dominical de TV, para a distinta família brasileira, do qual Fred Zero Quatro, ideólogo da banda, jamais participará por um entendimento mútuo.

O programa está na grade da emissora cujo fundador, beneficiado pelo regime militar, é o símbolo de tudo o que deve ser repudiado por aqueles que estão do lado errado do cassetete, usando a cabeça como escudo, tentando mudar o mundo com palavras de ordem ou atacando o patrimônio privado.

Como artefato de protesto contra o estado das coisas, tudo o que está aí tal como se encontra, com alvos definidos e arsenal teórico de imaculada procedência, o obstáculo que se levanta no caminho de A Dança dos Não Famosos (os explorados pelos profissionais das plataformas) é menos o panfletarismo das bandeiras desfraldadas e mais o anacronismo da perene luta do santo guerreiro versus o dragão da maldade.

A ousadia inerente à coragem de mandar às favas qualquer intenção de se dar bem vendendo discos, recheados de um discurso inflamado e avesso às corporações que um dia dominaram a produção artística brasileira, que possibilitaram as gravações de Raul Seixas, Taiguara, César Sampaio, Geraldo Vandré entre outros, é o estima soberano da independência, alternativa para quem não quer transar de rato num buraco do mesmo.

O Mundo Livre S/A provavelmente acredita não em mudar o sistema por dentro, mas em corromper o status quo montando guerrilhas sonoras. A contramão do processo é pregar para convertidos no imenso deserto das certezas inabaláveis, que não problematizam complexidades, antes reforçam estereótipos. Por outro lado, quantos andam se dando ao trabalho de serem assertivos, francos e diretos no equívoco dos sentimentos que valem quanto pesam na balança da incorruptibilidade?

Por outro lado ainda, o panorama temático, em que pese o fato de o disco ser o retrato das opiniões de Fred Zero Quatro diante de um quadro específico, segundo o evangelho escolhido por ele, demanda a controvérsia de se tornar o capítulo de uma obra, por certo coerente no todo, amarrado a circunstâncias peculiares e isoladas no túnel do tempo.

O Barão Vermelho fez sucesso, uma vez, com um rock radiofônico chamado Pense e Dance. Não são poucos os que procuram resolver esta equação num grau mínimo de competência e originalidade. O Mundo Livre S/A contribui para a solução do enigma com o fracasso de uma tentativa que expõe a chatice de levar o corpo para dançar, com uma voz chamando a razão na direção do compromisso de uma barricada.

Houve mais choque de intenções do que uma fusão bem sucedida.

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