Fragmentos de um encontro

Sábado, deu tempo de ir ao sebo. É legal dar um pulinho de uma hora por lá. Conheço os caras. Eles me conhecem. Fico à vontade. Ninguém pega no meu pé. Ninguém me oferece coisas. Mexo em todas as prateleiras. Saio de mãos vazias. Não tem problema. Quando levo discos, livros, eles me dão um prazo de pagamento. Sem limite. Claro, já troquei, vendi, comprei uma infinidade de títulos. A relação é de confiança absoluta.

As tarefas não permitem que eu vá ao sebo com a frequência desejada. Outros afazeres pedem atenção. São urgentes, necessários, indispensáveis. Paciência. No sábado, deu tempo. Beleza. Mas, não sei por que, não consegui focar a capa dos livros. Precisando trocar os óculos? Sim. O olhar cansado de tanto computador? Sim, também. Raios. As telas cada vez menores. Apesar dos celulares cada vez maiores. Que bela contradição.

Lembro de um anúncio de cinema nos anos 80. O correto é escrever anos 1980. Identificar a década. Enfim. Projetavam cenas de O Último Imperador, de Bernardo Bertolucci, morto em novembro. Grandioso. Colorido. Cheio de detalhes. Dois homens entravam em cena e começavam a pintar tudo de preto. O filme perdia definição. Até que a tela ficava do tamanho de uma TV. De tubo. Nem era dessas enormes, atuais.

Pois bem, repetissem o anúncio, para incentivar o espectador às salas de exibição, a pintura ficaria do tamanho de um smartphone. Minúscula. Já que estava indisposto para o crivo das lombadas, resolvi que, em vez de escolher um livro, seria escolhido por um deles. Simples assim. Decidi ficar de bobeira. Sem correr atrás de nada. Se algo do meu interesse estivesse por ali, acabaria se manifestando. De um jeito ou de outro. Dane-se.

Fui dar uma sapeada nos CDs. Varri as fileiras de ponta a ponta. Até ficar com os dedos sujos. Característica dos sebos. Ouvi um bocado. Optei por uma coletânea da Nina Simone. Recuperei o Afrociberdelia. Aquele, da Nação Zumbi, que foge todas as vezes, por ser nômade. E peguei um outro, que vou acabar trocando por outro. Não bateu. Alguém recomenda o No Way Out, de Puff Daddy & Family (leia-se Notorius B.I.G.)?

Fiquei de olho no The Billie Holiday Songbook, do Terence Blanchard. Mais pela voz maravilhosa da Jeanie Bryson, que não conheço. Ok, tudo em riba. De repente, rá! Virei para a área de biografias. Nunca me preocupo com biografias. Não faz parte da minha lista de curiosidades. Então, aconteceu. Frantumaglia (sim, o nome é esse), da Elena Ferrante, pulou em cima de mim. Uma edição novinha, de 2017, dando sopa. Sorte?

Subtítulo: Os Caminhos de uma Escritora. São cartas, textos não literários, entrevistas à distância. Elena é reclusa. Não gosta de aparecer. Tanto que desconfia-se que o nome seja um pseudônimo. Reconhecido à pampa. Li o quarteto napolitano, dela, que começa com A Amiga Genial. São belos e recomendáveis. Viraram uma série da HBO. Dirigida por Saverio Constanzo. Batizado em inglês, My Brilliant Friend. Não precisava.

Tenho visto. Gosto, no geral. Ambientação notável. Figurinos minuciosos. Fidelidade ao romance. Margherita Mazzucco, a Elena adolescente, é inexpressiva e coloca muito a perder. Vá lá. É uma concessão. Não acompanho séries. Na TV, vejo filmes, alguns jogos de futebol, um pouco de telejornal e shows, musicais. O interessante é que funcionou de novo. Um livro cruzou meu caminho. E, agora, está morando lá em casa.

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