O eterno retorno do mala

Eu me lembro do tio da Sukita. Não tem como não citar a marca do refrigerante. As grandes campanhas publicitárias, através do exercício da criatividade, deixam os nomes dos produtos gravados na cabeça dos consumidores. Quando a campanha é realmente boa, como essa, ela reverbera um comentário social além da primeira intenção, que é acender o desejo da posse ou do usufruto. O tio da Sukita realizou a tarefa há 20 anos.

Não importa se a meta planejada pelo departamento de vendas foi batida. O personagem ganhou vida própria. Ele é o estereótipo dos tiozões pelo Brasil. Com o exagero de todo estereótipo. Um comercial de TV condensa a mensagem que almeja transmitir em apenas 30 segundos. A sutileza fica um pouco prejudicada nessa minúscula duração. O slogan tem que ser direto e reto, sem margem para dúvidas ou reflexões sofisticadas.

Os papéis são bem definidos e as situações, resolvidas sem hesitações. Pois bem, nesse quadro, o tio da Sukita encontra uma adolescente no elevador. Papo vai, papo vem, ele entra naquela de conquistar a menina, que o descarta com uma estocada certeira e gentil. A garota, a princípio inocente, é simpática e suave. O tiozão entende o recado e fica na dele. Não força a abordagem. Naufraga redondamente na frustração. O efeito é cômico.

Fica exposta a pretensão do coroa que se achava um galã de novela. O ridículo pendão machista que prega que todo homem tem que dar em cima de toda mulher. Como se fosse uma estúpida questão de honra. A virilidade como instrumento de afirmação. Não interessa se estamos condenados à humilhação do fracasso. A receptividade deu origem a uma pequena série. Mudaram os ambientes, mas as circunstâncias eram as mesmas.

O homem maduro, que não sabíamos se era casado ou se era pai, tentando se aproximar de uma garota que tinha idade para ser sua filha, sem conseguir. O tempo passou, a água correu debaixo da ponte, as transformações viraram o mundo de pernas pro ar e o tio da Sukita voltou ao começo. De novo no elevador, de novo diante de uma adolescente, parecida com a Lolita anterior. Certas coisas permanecem exatamente como são.

Este homem envelhecido começa a ser elogiado pela sua modernidade. Ele anda de bicicleta, usa tênis de skatista, toma guaraná (poderia ser café) em capsulas. Antenado, deve estar nas redes sociais e tirar selfies. Entrando na terceira idade, procura aparentar que é menos idoso para os que estão à sua volta. Os elogios despertam o velho lobo do mar adormecido. Ele comete o erro de convidar a menina para visitar seu apartamento.

Será que é pedófilo? O tio da Sukita leva mais um fora, em apenas uma frase. Desta vez, a jovem é mais incisiva que suave. A vítima do ataque no passado quase não percebe as investidas. Era distraída, para não dizer ingênua. A vítima atual não faz papel de vítima. Ela sabe exatamente com quem está falando. Ela reconhece o espaço da intimidade que lhe cabe. É uma jovem consciente da sua imensa capacidade de dizer não e ser ouvida.

Ela refuta a imbecilidade da insistência. Em defesa do tio, vamos afirmar que ele é um reflexo que deve ser ignorado. Principalmente, se você já passou dos 40. Poucas facetas são mais abomináveis no mundo contemporâneo do que o sátiro babão. O carisma do ator, no entanto, que revive o personagem emblemático, não leva o tio da Sukita para o terreno da cretinice, propriamente. Antes, ele não passa de um infeliz equivocado.

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