No fundo do quintal da escola

O livro Nas Trilhas do Rock, organizado por Rainer Gonçalves Sousa, mestre em História pela UFG, une pontas antagônicas: a produção acadêmica, científica e rigorosa e bandas de rock, múltiplas e desordenadas. É a tentativa de uma visão sistematizada do que, por definição, não é muito ajuizado. São 10 ensaios, na maioria, de professores de História e Sociologia. A alta intelectualidade manifesta apreço pela baixa cultura.

É melhor do que desprezo. Embora, na contramão do preconceito, vertentes roqueiras levantem brigadas de menosprezo à erudição acadêmica. As linguagens são diferentes, convenhamos. Mas convergem, eventualmente, em apropriações de estilos que acabam sendo carimbados de movimentos elitistas. Faculdades de Arte são ninhos de dândis.

O fato é que muitos artistas utilizam o conhecimento adquirido nos bancos escolares em trabalhos inovadores e muitos pesquisadores se debruçam em cima das ruas, teorizando a respeito de movimentos de massa, como o rock. A troca não é tão profícua como desejam os sensatos, nem músicos nem estudiosos, porém ouvintes e leitores atentos.

O rock, em seu reflexo no espelho da rebeldia, exibe mais intuição, energia e feeling do que cérebro ou capacidade de ver suas impressões transformadas em detalhes coerentes. Devoradores de tratados preferem temas sérios, de respeitabilidade crítica, na escalada profissional da graduação. Nas Trilhas do Rock, assim, é feito uma pausa para o futebol.

Se crítico é aquele que, no diálogo com autores ou objetos de análise, aponta rumos inesperados, também é o observador privilegiado, com ferramentas de comparação, num plano de distanciamento superior, com uma frieza em contraste com a luz da criação original e autônoma. No atropelo do caos, a invenção atinge sensibilidades dispostas a elucubrar de maneiras mais figurativas e simbólicas do que em coordenadas impecáveis.

O livro, pois, organiza a bagunça em dois blocos. Seja no subtítulo, Experimentalismo e Mercadoria Musical. Seja na separação dos ensaios em Rock Internacional e Nacional. No primeiro caso, há uma correlação entre quem força a barra para impor sua vontade e os mecanismos de enquadramento na massificação. No segundo, há uma lente de contato entre as comunidades de origem e a filial tão, tão distante e presa ao passado.

Sem revirar o enigma das abordagens sobre vanguarda, Beatles, Led Zeppelin, Black Sabbath, Mutantes, punks e a geração dos anos 1980, O Caminho das Pedras, do doutor Cleber Sberni Junior chamou demais minha atenção. Trata da primeira edição brasileira da revista Rolling Stone, editada por Luiz Carlos Maciel e Ezequiel Neves em 1970.

Fica bem claro como o discurso dos historiadores soa pomposo e artificial. Ao lado da fala coloquial, engraçada e envelhecida, de jornalistas que discorreram sobre bandas de rock com leveza e despretensão. Eles podem servir de lição para um segundo volume. Doutores, relaxem um pouquinho e avancem nessa trilha sem tanto peso na mochila.

As tramas de Nas Trilhas do Rock não foram feitas para serem defendidas em bancas de mestrado. São convites para passeios peripatéticos, onde se conversa animadamente sobre assuntos que nos dão imenso prazer. Sem deixar a inteligência do lado de fora.

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