Desde que o samba é samba

A música liga Santo Amaro a Xerém. O samba é a via que se percorre entre os pontos. Maria Bethânia e Zeca Pagodinho festejam o encontro no palco. Não, infelizmente, em Goiânia. Perdemos. Mas podemos ver e ouvir o show no DVD e CD recém lançados. Eles oferecem 34 faixas para os comensais. É um banquete para os fãs. Que recebem o que vão procurar. Talento, profissionalismo, entrega, paixão, alegria e grandes sucessos.

A primeira metade é quase toda dedicada ao Zeca. A introdução estabelece a parceria. As vozes se aproximam em suas diferenças. A disciplina de Bethânia é algo digno de nota. Ela se mantém soberana dona do seu potencial. Não que seja indisciplinado, Zeca é mais descontraído em suas abordagens. A aura do malandro, aquele da boemia, é forte no seu perfil. O excesso de madrugada se reflete na dicção, na clareza, na emissão.

E, claro, na disposição em reconhecer os sambas que vão tocar a preferência do grande público. A sucessão de títulos facilmente reconhecíveis é um engenho dos bambas. Inclusive, os que zombam de suas mazelas. Maneiras e Não Sou Mais Disso, por exemplo. Não há samba gravado pelo Zeca que não ecoe na lembrança. Ele defende seu repertório com franca gratidão. Abre o diálogo com a plateia, que responde com ânimo.

O sincretismo também é um elemento em paralelo com Bethânia. O cristianismo anda de mãos dadas com as entidades naturais. As bênçãos dos céus se espalham no tablado, onde os músicos se dividem e se complementam para atender as diretrizes das canções. Não por acaso, a percussão ressoa com personalidade febril. O que chama para a dança, chama para a reza e para a luta. Hoje, parece questão de honra preservar o que é belo.

A origem do samba é uma questão menos importante, no espetáculo, do que a união dos batuques e dos pontos que mexem com os pés e com as cadeiras. Não se trata, afinal, quando se fala de Bethânia, de uma falsa baiana. Ela expande seu carisma na segunda metade do show. Imagino como deve ser difícil conciliar passado e presente em uma lista restrita de presentes desembrulhados no tempo limitado de uma temporada. Ave!

Menos mal que as temporadas são desencadeadas em uma sequência que propicia o inenarrável prazer de incontáveis lembranças e novidades supimpas. Caetano Veloso, o irmão compositor, providenciou Amaro a Xerém, que batiza toda a parafernália. Quem mais poderia emendar Negue a Ronda com a emoção que provoca delírios e calafrios? O sempre ouvido, em Bethânia, ganha a dimensão do que se ouve de novo sem cansar.

A poesia que está presente nos versos que povoam melodias extrapola para um recital de autores de outras paragens e paisagens. A viagem de Bethânia interdita, na verdade, o tempo, causando a sensação de que jamais sairemos desse vácuo de estética luminosa. Da calmaria da praça do interior para a metrópole repleta de assombros, tudo é destreza. Não bastassem os cuidados com os detalhes de uma cena que ilude, mas não ludibria.

O apogeu de Zeca e Bethânia não deixaria de atravessar a avenida de enredos escolares. O Carnaval da pele que sensualiza sob o sol exalta a nostalgia de bailes românticos debaixo da lua. Mestres são reverenciados em coro popular. Lembramos que o Brasil é de festa, apesar de sacudidas que têm pouco a ver com nosso imaginário dionisíaco. Mas a possibilidade do fuzuê surge estampada em nosso destino incomparável.

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