Como pular o Carnaval

Eu não sou de Carnaval, nunca fui. A camiseta Eu Não Sambo, de Oscar Fortunato, cabe em mim, perfeitamente. Não sou doente do pé. Só me resta a cabeça fora do eixo. Gosto de samba, de alguns. Ouvi muitos, bastante. Só que a destreza para sambar não se enquadra nas minhas qualidades. Fica para a próxima encarnação, talvez. Vamos ver.

Tivesse o molejo, faltaria a vontade. Não fosse dura a cintura, faltariam motivos suficientes. Não é preciso sambar ao pé da letra para curtir o Carnaval, diria alguém muito bem intencionado. A vibração basta. A alegria impulsiona. A coletividade empurra. Segue o fluxo. Vai desculpando, vou ficando por aqui mesmo. Parado.

Meu canto é um refúgio maravilhoso. Conformado que sou com a minha insensatez. A ideia de perseguir um trio elétrico me dá arrepio. É uma injustiça, mas trio elétrico me lembra coisas abomináveis, como Chiclete com Banana e Asa de Águia. Chiclete com Banana, para mim, era uma revistinha em quadrinhos do Angeli, do Laerte e do Glauco.

Imaginar o Carnaval como reduto de axé music é algo que me deixa passado, possesso. Eu não entendo axé music, essa anomalia. Que baianos lamentem minha ignorância é compreensível. Eu lamento a ignorância de inúmeros sucessos de axé. Os hits de Carnaval, neste quesito, deixam a desejar. São de uma imbecilidade catastrófica.

Pernambucanos haverão de perdoar minha incapacidade em achar o frevo animado. Adoro Alceu Valença, maluco. Mas passei da idade de pipocar na rua segurando uma sombrinha. Meus joelhos não permitem uma extravagância dessa natureza. Subir e descer ladeiras, atrás de bonecões, tampouco é um sinal de felicidade. Parece tortura.

Abstenho-me de comentários a respeito do Carnaval amazonense, dividido no culto e na disputa entre personagens bovinos. Deve ser interessante para quem participa, sei lá. O Carnaval carioca, na minha visão, é entediante. A exuberância das escolas de samba na Avenida me comove até a página três. Em pouco tempo, ficam todas iguais na chatice.

Sambas-enredos são intermináveis, repetidos à exaustão, esgoelados. As comissões demoram uma eternidade a passar. Os comentaristas, sim, são divertidos em suas análises incompreensíveis. E, este ano, teremos abordagens políticas durante os desfiles. Dificilmente haveria melhor maneira de unir a ideologia com a superficialidade.

E os blocos? Ah, os blocos! Detesto multidão. Claro, eu sei que sou um chato, como os antigos, de galocha. Por que me espremer no meio de uma turba se eu posso, em casa, ficar na companhia dos meus? Aliás, a pegação da festa mundana é algo que não me cabe. Essa história de multidão serve igualmente para shows, comícios e demais farras.

Enfim, nada contra a diversão de ninguém. Estou apenas resmungando, esperando o Carnaval passar. Vou aproveitar o feriado para cuidar da minha leitura e do meu sono.

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Como ler jornal hoje em dia

O nome do filme novo de Steven Spielberg, The Post, é uma ironia com as postagens e compostagens da internet. The Post é do jornal The Washington Post, o que aumenta a dose da ironia em dois dedos, se pensarmos nas estripulias que o presidente Donald Trump costuma aprontar no Twitter. Ou seja, Spielberg fala de ontem para falar de hoje.

The Post se passa na década de 1970, quando os jornais circulavam em papel impresso, as notícias eram datilografadas e as ligações telefônicas tinham que ser discadas. Muita coisa mudou de lá para cá e muita coisa continua praticamente igual. A proximidade da cúpula da imprensa com a cúpula do poder, por exemplo. Assunto discutido no filme.

O centro da questão é a publicação de um estudo secreto do governo americano que dava como certa a derrota do exército na guerra do Vietnã, os Pentagon Papers, embora a opinião pública fosse ludibriada com um otimismo suicida na contramão da realidade. Pense agora na maneira como os Panama Papers foram divulgados para todo o mundo.

Fontes que vazam informações que não são convencionais continuam em evidência. O New York Times foi o primeiro a dar importância aos documentos que o governo queria preservar e pagou caro por isso, com ações na Justiça. The Washington Post entrou na briga mais tarde, graças a Kay Graham (Meryl Streep) e Ben Bradlee (Tom Hanks).

Ela toma conta da empresa depois que o marido cometeu suicídio. Não pediu por isso, mas tem que lidar com as consequências. Socialite de família bem relacionada, Graham vai da insegurança à mais absoluta certeza no caráter de suas decisões com a categoria de uma atriz que concorre ao Oscar pela vigésima-primeira vez. É o poder feminino.

Lembrando que Meryl Streep andou batendo boca com Donald Trump em mais de uma ocasião. Bradlee, o editor-chefe do jornal, sonha com a oportunidade de fazer com que seu veículo ultrapasse o alcance provinciano. No momento em que ações são vendidas na bolsa de valores, na tentativa de melhorar a situação financeira capenga do negócio.

O primeiro impasse é a relação entre o lado empresarial e o lado profissional. Até que ponto um interfere na dimensão do outro. Considerando que o presidente da época, Richard Nixon, usaria expedientes escandalosos para salvar as aparências. O segundo impasse, ligado à jurisdição americana, tem a ver com a liberdade de expressão.

The Post termina em uma alusão ao caso Watergate, que custou a renúncia de Nixon e que também foi investigado pelo jornal, o que pode ser visto em Todos os Homens do Presidente, de Alan J. Pakula. Ele fecha uma dobradinha recente com Spotlight, de Tom McCarthy, em 2015, sobre jornalistas que investigaram os padres pedófilos de Boston.

Ou seja, no auge das chamadas fake news, temos igualmente uma defesa do jornalismo feito com seriedade e compromisso, ameaçado por riscos inerentes aos seus propósitos.

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Como dançar O Vira de novo

Millôr Fernandes disse uma vez que imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados. Um comércio desse tipo vendia de tudo um pouco, de comidas a tecidos. Sabe-se lá por que, Ney Matogrosso, João Ricardo e Gerson Conrad montaram uma banda com esse nome em 1970. Os Secos & Molhados estão de volta pelas mãos de Charles Gavin, ex-baterista dos Titãs e apresentador d’O Som do Vinil no Canal Brasil.

A capa de Primavera nos Dentes, em fade in ou fade out, ao gosto do freguês, mostra uma entidade com uma revolta cabeleira de galhos secos. O trabalho dessa capa tinha que ser especial por uma série de motivos. A capa do primeiro disco dos Secos & Molhados, de 1973, de onde saiu a maioria das canções de Primavera nos Dentes, é icônica. As cabeças dos três e do baterista Marcelo Frias estão servidas na mesa.

O segundo disco dos Secos & Molhados, lançado um ano depois do estouro arrasador do primeiro, tinha a cara dos integrantes em fundo preto. As faces pintadas causaram espanto, tanto quanto a presença de palco do grupo, com Ney Matogrosso ousando o caminho da liberdade sexual, com um timbre vocal estupendo e diferente, numa época em que o regime militar no Brasil impunha um comportamento reservado e comedido.

Isso foi tudo. Secos & Molhados, um cometa na música brasileira, deixou um legado inovador que perdura. Desnecessário frisar a carreira em todos os sentidos vitoriosa de Ney Matogrosso, que completou 76 anos em agosto. João Ricardo gravou mais alguns títulos com o nome do trio, que merecem atenção, mas não entusiasmo. A recuperação de um show de 1974 no Maracanãzinho, mais tarde, matou a saudade com seu frenesi.

O desafio da Primavera nos Dentes para Charles Gavin seria encontrar um vocalista à altura do original. Ele não se fez de rogado ao convidar a gaúcha Duda Brack, que lançou É em 2015 e que, evidente, não imita ninguém e confere personalidade ao que poderia ter sido um pastiche. Ainda bem que Charles Gavin (sim, bateria) não inventou um Adam Lambert para o lugar de Fred Mercury. Chupa essa manga, Brian May.

Particularmente, vibrei com a escalação do guitarrista Paulo Rafael, que ajudou Alceu Valença a colocar o frevo na tomada, veterano expoente da psicodelia no Recife. Pedro Coelho (baixo), que tocou no Dona Joana, e Felipe Ventura (violino), que já tem uma história na banda Baleia, são recrutas da nova geração independente. Bem bolado introduzir um violino na produção de Rafael Ramos, cabeça pensante do selo Deck.

Simbiose com 11 faixas representativas, faltaram Flores Astrais e As Andorinhas em Primavera nos Dentes. Nada impede que elas invadam o repertório dos shows. Delírio, logo na abertura, roga: “sou quem toca/ sou quem dança/ quem na orquestra desafina/ quem delira sem ter febre”. A banda de hoje presta homenagem à banda de ontem com viés excelente. Importante é mostrar que as escolhas pontuais ainda são atuais. O esforço valeu a pena. Primavera nos Dentes é contemporâneo como Secos & Molhados.

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Como ter uma coleção de vinis

O site Dust & Grooves é um dos meus endereços fixos na internet. Quando não estou trabalhando, é claro. O emprego exige visitas diárias aos sites de notícias. O subtítulo do Dust & Grooves é Adventures in Record Collecting. São visitas a colecionadores de vinil. O criador do site, Elion Paz, é um israelense que foi parar no Brooklyn, em NY.

A brincadeira começou pela vizinhança e, com o tempo, se estendeu pelo mundo. Elion já visitou colecionadores na Austrália, em Cuba, na Argentina e em Gana, para citar alguns países. Se viesse ao Brasil e desse um pulinho em Goiânia, seria inadiável tomar um café na casa do Fábio Sabbath. Ele, certamente, ficaria encantado com a decoração.

Elion angariou uma rede enorme de colaboradores. Gente que se propõe a dar uns toques sobre amigos que gostam de LPs, que se propõe a recebê-lo para mostrar sua coleção e que se propõe a acompanhá-lo nas visitas. As perambulações completaram 8 anos. No caminho, um livro com mais de 130 colecionadores foi posto à venda no site.

O objetivo de Elion é apresentar, pelo menos, um colecionador por mês no Dust & Grooves. Quando eu digo um colecionador, eu quero dizer um maluco que guarda uma quantidade exorbitante de discos em casa. Quando eu digo uma quantidade exorbitante, eu quero dizer uma quantidade absurda. Algo que seria inimaginável para os normais.

O cara visitado em dezembro, Alexis Charpentier, conhecido como DJ Lexis, soma algo em torno de 10 mil LPs em Montreal. Quer saber de uma coisa? Cada unidade conta uma história, reacende uma memória, um conjunto de sensações. Muito diferente de acessar uma plataforma de streaming e ouvir um trabalho que desaparece quando acaba.

Não vou negar a praticidade de encontrar e usufruir um título que é um vazio na sua prateleira, através de comandos específicos. Ou de conhecer coisas novas, estranhas, ousadas e irreverentes, de nomes que nunca lhe chegariam de outra forma. Porém, quando você vê as fotos que Elion faz das coleções visitadas, seu queixo vai ao chão.

O que esses caras têm na cabeça? Não sei, mas sinto vontade de possuir metade de tudo o que eu vejo. É, realmente, invejável. Uma coleção não surge de uma hora para outra. Ela resulta de uma conquista, passo a passo. Ela precisa ser bem acondicionada. Ela exige manutenção para não deteriorar. Ela deixa marcas, para sempre, na sua residência.

E ela pede para ser ouvida. Além das entrevistas e das imagens, nas quais são reveladas raridades, inclusive brasileiras (existem gringos com mais LPs de artistas nacionais do que muitos conterrâneos nossos), os colecionadores são convidados a criar uma seleção de faixas para os internautas. Lexis apresenta mais de uma hora de Dancefloor Jazz.

É um deleite para quem curte o riscado. Há alguns anos, venho planejando a compra de um toca-discos. Qualquer dia vai dar certo, espero. Voltarei aos bolachões? Com prazer.

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Como ler poesia no sebo

Peguei um livro por acaso no sebo. [Poemas], entre chaves. Só isso. Simples assim. Na capa, uma senhora fuma, diante de uma xícara que imagino ser de chá. Atrás dela, numa estante, há livros inclinados. Ela tem os olhos fechados. Traga o cigarro com as unhas feitas. A fumaça obscurece uma expressão enrugada. Quantas vezes ela repete o gesto?

O nome da senhora é cheio de consoantes. Wislawa Szymborska. Demoro para tentar a sonoridade polonesa. É provável que repita o nome dela errado até agora. A foto da sueca Johanna Helander é em preto e branco. Detalhe que, na minha percepção, parece mais artístico. A tradutora dos poemas de Szymborska é Regina Przybycien.

Ela também não tem um nome fácil de ser pronunciado. Nada aqui, até o momento, é muito interessante. O que poderia me atrair no livro de uma senhora que fuma, a ponto de me fazer acreditar que sua voz é grave e rouca? Dá para ver as horas no reloginho fora de moda que ela usa no pulso.  Eis o que pode ser a senha de uma resposta.

Tudo, nesta imagem, é prosaico. Não há produção. Os cabelos de Szymborska não estão bem penteados. A gola da camisa está desalinhada. A borda da xícara está gasta. O cenário não foi arrumado. O retrato é caseiro e relaxado. No sentido de que não existe uma intenção de dar a entender que Szymborska se parece com aquilo que não é.

A senhora transmite autenticidade. Folheio o livro ao acaso e a mágica se dá, mais uma vez, na minha frente. Página 63. O poema se chama A Vida na Hora. Leio do começo ao fim. Paro, aturdido. Leio novamente, do começo ao fim. Nova estupefação.

Imagino quem me vê de fora, agachado aos pés de uma estante no sebo, expressão abobalhada na frente de um livro. Acho que faço papel de idiota. É só emoção por um achado extraordinário. Decido que tenho que levar os poemas de Szymborska para casa. Onde eles se encontram, atualmente, na companhia de um segundo volume.

[Um Amor Feliz], também entre chaves, também com tradução de Przybycien. Neste segundo volume, a autora surge mais jovem, mais arrumada e fazendo pose na capa. Há quase uma contradição no lapso de tempo. Mas estou inteiramente rendido à sua poesia.

A Vida na Hora fala de uma cena sem ensaio, de um corpo sem medida, de uma cabeça sem reflexão. Ao mesmo em que reflete sobre o papel que se desempenha, o despreparo para a honra de viver. O improviso do tropeço, o amadorismo dos instintos, o pavor do palco. A urgência deplorável da peça adivinhada e a impossibilidade da prática.

A inutilidade de toda preparação. A estreia com um roteiro desconhecido. A solidez dos acessórios e a materialidade da existência, desenhada em cada movimento. A conclusão chega de uma maneira que me deixará eternamente acabrunhado: “e o que quer que eu faça, vai se transformar para sempre naquilo que fiz”. Vamos lá, abram as cortinas.

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Como curtir a música goiana

Faz tempo que estou para falar desses discos. Chegou a hora de tirar o atraso.

Do Café à Cachaça, de Fred Valle, embriaga e sacode. Põe a cachola no balaio. Serve aperitivos de toda parte. Roda pelo mundo com desembaraço. Partilha o tempo todo a quebradeira com malucos. Passeia pelo centro da cidade em um inverno felakutial. Propõe um mosaico sonoro que é paisagem na tela das suas influências. Experiências arranjadas em tubos de ensaio. Alquimista das sensações frenéticas que não são palatáveis. Comensais, preparai-vos para o sonho dentro de um sonho. Recheado e lambuzado de uma dinâmica ininterrupta, estupefaciente. Em vibrações lisérgicas, nervosas, revolutas, resolutamente criativas. Mirabolantes pesquisas do que se passa na mente desse menino nos anos 80. Se fosse mais fácil não seria tão interessante.

Luciana Clímaco chega florida em Ambígua. Faz um samba enviesado em Reclame. Põe o triângulo na guitarra com a cuíca. Aplica um andamento atípico na faixa título. Sapeca tempero na carne doce. Mete Stevie Wonder no forró do Gonzaguinha. Entra fora e sai dentro dos arranjos de Fred Valle e Henrique Reis. Aposta na novidade e não abdica da tradição. Veste o antigo com uma roupa colorida. Dita sua vontade para ser escrita em letra de forma. Brinca de mudar a cara da canção. Revira expectativas com pouca idade. Acelera o verso na rima. Puxa o saco do irmão. Modernete naquele passado, nem liga para o desmanche dos sentimentos. Mas se alonga na faixa 7. Canta sobre uma base movediça num ritual tupinambá. Desata o nó da gravata e joga areia branca no ouvinte que se rende ao seu chamado.

Kleuber Garcêz cerca-se de Raul Misturada e Paulo Monarco para cultivar Divino. Desde já, uma capa a ser lembrada. A deusa negra do sincretismo natural. Pode ser que o clima, aqui, desatine para o lúgubre. Quem faz música para quem salta no abismo quer conhecer o sentido da vertigem. Se Kleuber não se resume ao que é banal, transfigura o instrumental nas dobras de uma fantasia ora lúdica ora sombra no quintal. Metamorfose cambaleante. Tem faixa que dá para tocar no rádio. Outras, tocam em partes escondidas da consciência. Travesso poeta no arame, tirando polaroides de um tsunami. A boneca de Pandora gira na superfície espelhada que abre e fecha a caixinha de som com manivela. Há uma névoa que desvela e vela o que pode ser mal dito.

Jukebox from Hell é o território dos riffs. Bravura indômita. Recado imediato, claro, cristalino. Sem meias frescuras. Power banda que remete ao tempo dos homens cabeludos. Com efeitos na guitarra de Yan Ferreira, o baixo potente de Pê Ribeiro e a bateria de Thiago Jacobson, que faz questão de ter uma voz. Não chega a ser a conjuração de uma horda rebelde, prestes a tomar a cidade de assalto. Destemperado pede canecões de chope ao cair da tarde. Os clichês são triturados e remodelados em homenagens à pátria do rock. O trio e seguidores erguem tributos reconhecíveis e bem vindos no altar onde arde a chama da eterna juventude. Enquanto formos capazes de sentir aquele arrepio na alma com um solo inflamado que parece não ter fim.

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Como arrumar um trabalho maneiro

Eu trabalhei nas Lojas Americanas. Aliás, meu primeiro emprego em Goiânia foi de assistente de tesouraria, numa empresa de limpeza e vigilância. Não poderia haver exemplo mais gritante de pessoa errada no lugar errado. Por isso, fiquei pouco tempo.

O primeiro emprego da minha vida, diga-se de passagem, foi de atendente no balcão de uma padaria. Levantava de madrugada para abrir as portas com a rapaziada e preparar o ambiente para os primeiros clientes. Também não durou muito. Era chato pra caramba.

Meu segundo emprego foi numa fabriqueta de sacos de dormir. Não lembro o que eu fazia. Nada importante, com certeza. Mas lembro do relógio de ponto. Trauma. Era antigo. Você tinha que colocar uma cartela nele e puxar uma alavanca. Ele fazia um barulho dos diabos e perfurava a cartela, que era devolvida para um quadro na parede.

Como eu detestava aquele relógio de ponto. O modelo me persegue. Atualizado, ele cospe um cupom, depois que você coloca a digital para leitura onde, antes, entrava a cartela. O propósito é o mesmo. Registrar seu horário de entrada e saída. Embaraçoso. Odeio relógios de ponto. Prefiro um relógio de vírgulas, mais engenhoso. Vou inventar.

Da fabriqueta, passei para o escritório de uma oficina de bombas injetoras. Moleque, tinha talento para arrumar empregos ruins. Sabe como é, dava meus pulos para ajudar em casa. Eu não gostava daqueles lugares. Mas ainda não sabia o que eu queria fazer na vida. Então, qualquer lugar era uma experiência válida, com um salário no final do mês.

Fui ‘maloteiro’ numa transportadora de remédios. Não entenda mal. Ficava no malote, departamento que recebia e distribuía correspondências, da matriz para as filiais e vice-versa. Meu chefe era bipolar. Na época, a gente dizia que ele era maníaco-depressivo.

Trabalhei numa estação climatológica, em Tucuruí, no Pará. Os meteorologistas do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia queriam saber se o lago, gerado com o represamento do rio Tocantins, na construção da maior hidrelétrica do Brasil, iria modificar o clima da região. Por isso, montaram a estação, com um monte de aparelhos.

Eles tinham que ser diariamente monitorados. Eu e um colega éramos responsáveis por isso. Foi um período maravilhoso. A primeira vez que eu realmente gostei do trabalho. Não tinha ninguém pra ficar no nosso pé e sobrava tempo para ouvir música, ler e escrever. Sim, eu fiz parte de clubes de correspondência que discutiam sobre rock. Mais um assunto para ser comentado em outra ocasião.

E as Lojas Americanas? Lá, fui locutor de ofertas. Pode rir, eu mereço. Sonorizava a loja e anunciava os produtos, além de animar as liquidações. Era até divertido. Depois, comecei finalmente a escrever em jornais e para rádios. Não parei mais, até hoje. Lá se vão bons pares de anos. Agora, danou-se. Será que eu me daria bem em outra atividade?

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