Como fazer um convite irrecusável

Entrevistei Paulo Betti em outubro de 2012. Ele estava no elenco da peça Deus da Carnificina, com Júlia Lemmertz, Orã Figueiredo e Deborah Evelyn, sob direção de Emílio de Mello, no Teatro Madre Esperança Garrido. Eu estava no jornal O Hoje.

O texto de Yasmina Reza, traduzido na montagem brasileira por Eloisa Ribeiro, foi ao cinema pelas mãos de Roman Polanski em 2011, com Christoph Waltz, Kate Winslet, John C. Reilly e Jodie Foster. Antes disso, já tinha passado por vários palcos mundiais.

Na época, Paulo Betti divulgou o site da Casa da Gávea, onde o texto da peça poderia ser baixado de graça. O tema, afinal, é pertinente como nunca, a (in)tolerância. Sobre os planos para o futuro, ele se referiu aos filmes Casa da Mãe Joana 2, dirigido pelo saudoso Hugo Carvana, e A Fera na Selva, que estava produzindo com Eliane Giardini.

Meus olhos brilharam com a segunda informação. A Fera na Selva é uma novela de Henry James, que eu modestamente considero o maior romancista que já pisou na face da Terra até o momento. Um degrau acima de Marcel Proust, se me permitem a ousadia.

Isso motivou uma breve troca de e-mails entre Paulo Betti e eu. Ele me enviou o roteiro do filme. Trocamos algumas impressões e ficou tudo por isso mesmo. Até a semana passada, quando o acaso me fez lembrar dos planos de Paulo Betti. Retomei o contato.

O acaso surgiu com o filme Através da Sombra, de Walter Lima Jr., de 2016, que estava passando na TV a cabo quando cheguei em casa na semana passada. Ficou claro que se tratava de uma adaptação de A Outra Volta do Parafuso, um belo conto de Henry James.

Perguntei a Paulo Betti como vai a produção de A Fera na Selva. Ele disse que o filme está quase pronto, inscrito para o festival de Gramado e que pretende lançá-lo em Goiânia até o final do ano. E propôs a todos um processo educativo de lançamento.

Leia o livro, leia o roteiro, veja o filme e participe de uma oficina, presencial ou virtual, com certificado pelas Faculdades Cesgranrio. Comprando o livro pelo Kobo, colocando no fim: promoção feranaselva 50 e pagando 6 reais, você recebe o roteiro do filme.

Tenho o livro da Cosac Naify de 2007, com tradução de José Geraldo Couto e posfácio de Modesto Carone. Paulo Betti me mandou por e-mail uma edição da Rocco, de 1985, com tradução e prefácio de Fernando Sabino. Excelente motivo para uma releitura.

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Como dar um passo na direção dos melhores

O selo Três Estrelas lançou Como Escrever Bem, de William Zinsser. Escrevi a frase três vezes, cada alternativa mais curta que a outra, antes do formato definitivo. Como começo a escrever esta coluna a mão (sim, eu faço isso), gerei duas bolinhas de papel. Uma para a cabeça de cada uma das minhas filhas, que as devolveram sem pontaria.

Bom, danou-se. Eu tenho que ler este livro. Mais um. Mas você escreve tão bem, Adalto, digo para mim mesmo e agradeço, sem falsa modéstia. Imagina. Quando a gente se conforma com o que sabe fazer, achando que não precisa aprender mais nada, é exatamente quando o tombo vem mais feio. Catapum!

Claro, eu gosto de ler porque eu gosto de ler. Ponto. Nunca achei que eu precisasse de uma desculpa melhor. Ler é bom porque é bom, ora. Acontece que eu escrevo, todos os dias, há uns 30 anos. É mais da metade da minha vida. Escrever é uma atividade traiçoeira. As palavras pregam peças e preparam armadilhas.

O livro de Zinsser, embora não seja um abominável manual de redação, foi feito para jornalistas. Como todos sabem, jornalistas contam histórias, mas não deveriam ser ficcionistas. Exceto nas horas vagas, por prazer. Ou lucro, se virarem romancistas. Na interseção, procure Truman Capote, Gay Talese, José Hamilton Ribeiro.

Jornalista que não lê deixa de usar as pernas para andar com muletas. O que Gustave Flaubert pode me ensinar? Além de ocupar o tempo de maneira tão engenhosa? A observar a construção do texto, com suas vigas e alicerces. Para que eu pelo menos tente escrever sem usar frases prontas, que desmoronam diante da fragilidade dos chavões e dos clichês. Copiar o estilo dos seus autores preferidos é um bom exercício.

Neste sentido, Como Escrever Bem vem a calhar. Deve ser um livro bem escrito. Arejado, daqueles em que a brisa passa pelo meio das frases. Porque, mesmo na hora de falar de assuntos áridos, como política, é possível ser um companheiro da leveza.

Como trabalho em rádio, escrevo pensando em quem fala e, principalmente, em quem ouve. Você aí do outro lado não precisa concordar com o que diz o texto. Eu ficaria satisfeito se você reconhecesse que, talvez, tenha sido bem dito.

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Como escrever a história da sua vida

Como disse antes, estou lendo Karl Ove Knausgärd e Elena Ferrante. Duas narrativas supostamente biográficas. Digo supostamente porque toda memória é construída. Não existe memória mais construída que a narrativa literária. Marcel Proust que o diga.

É interessante notar contrastes no desenrolar das histórias. Especialmente no ritmo. Elena é calorosa, rápida e apaixonada. Karl Ove é lento, depressivo e racionalista. Elena, como personagem, apaga-se diante de Lila, sua heroína. É uma narradora que observa os acontecimentos de um ângulo privilegiado, mas difuso, refletindo luz alheia.

Karl Ove expõe a si mesmo num cenário belo e misterioso, numa Europa gelada, em uma nota só de branco total radiante. Tudo é pausado e revelado em pormenores. A vida, em uma rotina confortável, é recortada por sentimentos incontroláveis. A paisagem interior do personagem reflete a honestidade com suas idiossincrasias.

Elena corre, voa sobre tudo, fala pelos cotovelos, cresce física e espiritualmente num ambiente pobre, nos arredores de Nápoles, com amigos arruinados em subempregos. Eles são cheios, no entanto, de sonhos de grandeza, esturricados pelo sol.

Karl Ove pode ser escritor e não passar fome. Ele frequenta universidades e cafés, jantares e festas e convive com outros escritores, poetas e intelectuais. É um boêmio em compasso de espera para ser pai. Sem saber, na verdade, se o papel lhe cabe. Vamos lembrar que o primeiro volume de sua trilogia é exatamente sobre a morte do pai.

Elena, com esforço pessoal, enfrenta obstáculos grosseiros, pensamentos tacanhos ao redor. A (des)esperança de Elena ganhou minha simpatia. Tenho lido mais A História do Novo Sobrenome do que Um Outro Amor, de Karl Ove. Talvez porque o hipster viking da Noruega seja mais ensimesmado que a pequena sombra de Sophia Loren.

A quem interessar possa, comprei aquela caixa com a Ilíada e a Odisseia no sebo. Contemplo sua imagem todos os dias na estante. Ela ficou bonita lá. Não ouso tocar nela em sinal de reverência. As epopeias de Homero vão maturar nas cercanias da minha família. Até que um de nós sinta-se preparado para o ataque.

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Como cantar Beatles de um jeito diferente

As meninas foram dormir na casa da tia. O relaxante muscular (dor no ombro direito e síndrome do jogador de golfe no cotovelo) ficou para domingo. Não queria sonolência no sábado. O compromisso era inadiável: show dos Blues Beatles num pub da cidade.

O compromisso era inadiável para mim. Adriana foi comigo porque nos amamos e estamos casados há mais 20 anos. Se ela me acompanha ao hospital, por que não me acompanharia a um show de rock? Não que ela não goste de Beatles. Pelo contrário.

Mas como disse o amigo Marinho Jorge, à meia-noite gente da nossa idade está tomando leitinho com a intenção de ir para a cama. Perdemos o costume de atravessar as madrugadas insones. Eu estava disposto a abrir uma concessão para os Blues Beatles.

Porque a combinação é inusitada. Músicas do quarteto de Liverpool com um toque de blues de Chicago? Estou dentro. O desempenho do tecladista Flávio Naves no palco é delirante. Por fim, mas não por último, o guitarrista é o grande Lancaster Ferreira.

Tenho quase todos os discos do Lancaster. Falta um, A Beautiful Day for the Blues. Quero o novo, Say Goodbye to Trouble. O primeiro, Working Like a Slave, de 1996, é uma obra que merece uma acolhida muito mais entusiasmada do que obteve na época.

Late Night Blues e a coletânea Blues Journey ganharam o inestimável autógrafo do Lancaster nas capas. Como Flávio assinou a capa de Legacy of the Hammond B3, com Deacon Jones. Os primos ainda gravaram Bluesamba juntos, numa vibração relaxante.

A noitada foi totalmente excelente. Blues Beatles é uma banda espetacular e fez um show honesto de duas horas. Com um vocalista que não nega fogo um minuto sequer, Marcos Viana, e a cozinha dos figuraças Bruno Falcão (baixo) e Fred Barley (bateria).

Pena que Denilson Martins (sax) não veio. Pena que Marcelo Naves (gaita) não veio. Pena que eles não mostraram a versão estarrecedora que aprontaram de Yesterday. Pena que não comprei o primeiro disco da banda, com o Yellow Submarine sendo rebocado.

Pena maior de quem não teve a oportunidade de ir ao show. Da próxima vez, não perca. Vale muito a pena ver esses caras transformando Beatles em algo que você nunca ouviu ou simplesmente reacendendo a velha paixão por canções que ainda nos encantam.

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Como viajar para mundos distantes

As manhãs de sábado foram feitas para a gente ir ao sebo. Não é preciso comprar nada, necessariamente. Basta ficar à vontade, cercado por livros e discos e pessoas amigáveis que gostam de livros e discos. Essas coisas ultrapassadas, que qualquer um pode baixar no computador, sem sair da casa e sem encontrar pessoas que gostam de livros e discos.

Fui ao sebo na manhã de sábado. Levei alguns livros para trocar. Uns cuja leitura não me cativaram o suficiente para justificar a manutenção de sua permanência. Outros cuja leitura não seriam empreendidas em face de urgências muito mais notáveis. Há livros que ficam. Há livros que passam. Há livros que jamais serão tocados e experimentados.

Entrei e dei de frente com uma caixa ainda não etiquetada, cheirando a nova, que abrigava dois volumes imponentes, a Ilíada e a Odisseia, de Homero, em versos. Tive a imediata sensação de que seria criminoso abandonar um objeto daquela envergadura à própria sorte. Era claro como a luz do sol que eu deveria levar aquela caixa para casa.

Mas os meus livros, generosamente acolhidos, resultaram num crédito insuficiente para a troca. Poderia deixar o restante anotado para pagar mais tarde. Sim, eles anotam minhas contas, como antigamente. Perdem, às vezes, as anotações e dão risada, os malucos. Eu continuo anotando e deixando por lá um material de excelente qualidade.

Desta vez, achei prudente ficar no limite das minhas possibilidades. Não sei desde quando passei a ter lampejos razoáveis. Peguei O Professor do Desejo, do grande Philip Roth, uma nova edição de A Dama do Lago, de Raymond Chandler, e uma charmosa coletânea de artigos a respeito da idade, Meu Pescoço É um Horror, de Nora Ephron.

Voltei para casa satisfeito. Embora tenha deixado o Junta-Cadáveres, de Juan Carlos Onetti, que pulou no meu colo, na estante. Isso acontece com frequência. É a teoria da invisibilidade. Títulos escondidos, aos quais você não daria atenção, saem das sombras e pedem para ser levados. Há livros que você escolhe e há livros que escolhem você.

Mas em algum momento você acha que eu parei de pensar naquela caixa com a Ilíada e a Odisseia? E você acha que eu vou parar de pensar nela com uma fixação que beira o doentio? Não enquanto não obtê-la ou até o momento de perder a oportunidade de uma vez por todas. Esse é o tipo de consumismo que eu tenho na vida. Graças a Deus!

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Como dar um mergulho no passado

A Montanha Mágica, de Thomas Mann, conta a história de um jovem engenheiro, Hans Castorp, que sobe ao sanatório Internacional Berghof, na cidade suíça de Davos-Platz, para visitar o primo, Joachim Ziemssen, militar que se recupera de uma tuberculose.

Lá em cima, no alto da montanha, isolado da vida prática de um mundo em convulsão, ele aprende que as horas são antes de tudo elásticas. Hans Castorp é convencido pelos médicos atenciosos a fazer exames que revelam que ele não vai muito bem de saúde.

Logo nosso herói se vê adaptado a uma rotina confortável, que provoca uma sensação aprazível, de entorpecimento geral dos sentidos. O contato com outros pacientes e uma paixão improvável, que emana desse contato, reforçam o sentimento de segurança.

Tudo isso o leva a se distanciar cada vez mais das referências anteriores, aquelas que se desenrolam, com suas atribulações, nas realizações do trabalho e seus inúmeros deveres com a família, o país e uma ideia de continente. Estamos próximos da Primeira Guerra.

Quem apela para a razão adormecida de Hans Castorp, tentando levá-lo por todos os meios a abandonar o panorama de sonho da montanha e a retomar a meada de uma história que está apenas começando, com toda sua gravidade, é o senhor Settembrini.

As palestras do senhor Settembrini, acompanhadas pela dialética do senhor Naphta, em disputa acirrada pela alma do jovem discípulo imaturo, são desafios para o leitor. Eles continuam válidos, necessários e fundamentais exercícios de reflexão concentrada.

Não tenho a pretensão de fazer aqui nada além do que uma indicação de leitura. Mesmo sabendo que um romance de quase mil páginas equivale a uma ingrata epopeia para as mentes seduzidas pelas redes sociais. Há uma nova edição, de capa dura, nas livrarias.

Eu ouvi, recentemente, a voz do senhor Settembrini ressoando no tempo, dizendo a Hans Castorp para descer a montanha e levar uma existência digna da sua juventude. O atrito das contradições é mais interessante do que a apatia morna da insensibilidade.

Hoje, apesar da voz do senhor Naphta continuar a ser ouvida, com invectivas de um furor perigoso, o senhor Settembrini estaria falando para os jogadores da Baleia Azul.

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Como sonhar de olhos abertos

Estou lendo Karl Ove Knausgärd, Elena Ferrante e Chuck Palahniuk, com Bruno Tolentino, Adélia Prado e Caio Fernando Abreu nos intervalos dos jornais.

Enquanto a política serve doses cada vez maiores de repulsa e aversão, a literatura, muito mais gentil, provoca reflexões (nem sempre agradáveis) no campo da beleza. A política, vulgar e mesquinha, não é páreo para a generosidade da literatura, mesmo quando ela trata dos aspectos vulgares e mesquinhos da existência.

Não estranhe se digo que as reflexões provocadas pela literatura são belas e, ao mesmo tempo, desagradáveis. De modo geral, a provocação deveria ser dominada com um pouco mais de sutileza. Shakespeare é um mestre na arte das pragas e maldições.

Quem adula o ego do leitor com amenidades, quem passa a mão na cabeça do leitor com roteiros descartáveis, quem afaga a inteligência do leitor com soluções diluídas e previsíveis é o escritor de entretenimento, o escritor de best-seller.

O que não impede ninguém de perder tempo, eventualmente, com algo do gênero. Tampouco há uma regra não escrita que impeça um escritor de entretenimento de subir ao posto de um autor sério, com admiradores fiéis.

Sou leitor de Raymond Chandler, criador do grande detetive particular Philip Marlowe, interpretado em filmes espetaculares por Humphrey Bogart, que também deu vida nas telas a Sam Spade, o detetive particular criado pelo grande Dashiell Hammett.

Enfim, como estava dizendo, Knausgärd e Elena escrevem sobre suas memórias. Do primeiro já li A Morte do Pai e leio, no momento, Um Outro Amor. Ambos da trilogia Minha Luta, que se completa com A Ilha da Infância, que me espera na estante.

Da segunda comecei A Amiga Genial, do quarteto napolitano formado por História do Novo Nome, História de Quem Foge e de Quem Fica e História da Menina Perdida, que estão na minha lista de compras. Acabou o espaço e não falei do Clube da Luta.

Mas ficam as dicas dos romances que me acompanharam no feriado da Páscoa.

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