Como curtir a música goiana

Faz tempo que estou para falar desses discos. Chegou a hora de tirar o atraso.

Do Café à Cachaça, de Fred Valle, embriaga e sacode. Põe a cachola no balaio. Serve aperitivos de toda parte. Roda pelo mundo com desembaraço. Partilha o tempo todo a quebradeira com malucos. Passeia pelo centro da cidade em um inverno felakutial. Propõe um mosaico sonoro que é paisagem na tela das suas influências. Experiências arranjadas em tubos de ensaio. Alquimista das sensações frenéticas que não são palatáveis. Comensais, preparai-vos para o sonho dentro de um sonho. Recheado e lambuzado de uma dinâmica ininterrupta, estupefaciente. Em vibrações lisérgicas, nervosas, revolutas, resolutamente criativas. Mirabolantes pesquisas do que se passa na mente desse menino nos anos 80. Se fosse mais fácil não seria tão interessante.

Luciana Clímaco chega florida em Ambígua. Faz um samba enviesado em Reclame. Põe o triângulo na guitarra com a cuíca. Aplica um andamento atípico na faixa título. Sapeca tempero na carne doce. Mete Stevie Wonder no forró do Gonzaguinha. Entra fora e sai dentro dos arranjos de Fred Valle e Henrique Reis. Aposta na novidade e não abdica da tradição. Veste o antigo com uma roupa colorida. Dita sua vontade para ser escrita em letra de forma. Brinca de mudar a cara da canção. Revira expectativas com pouca idade. Acelera o verso na rima. Puxa o saco do irmão. Modernete naquele passado, nem liga para o desmanche dos sentimentos. Mas se alonga na faixa 7. Canta sobre uma base movediça num ritual tupinambá. Desata o nó da gravata e joga areia branca no ouvinte que se rende ao seu chamado.

Kleuber Garcêz cerca-se de Raul Misturada e Paulo Monarco para cultivar Divino. Desde já, uma capa a ser lembrada. A deusa negra do sincretismo natural. Pode ser que o clima, aqui, desatine para o lúgubre. Quem faz música para quem salta no abismo quer conhecer o sentido da vertigem. Se Kleuber não se resume ao que é banal, transfigura o instrumental nas dobras de uma fantasia ora lúdica ora sombra no quintal. Metamorfose cambaleante. Tem faixa que dá para tocar no rádio. Outras, tocam em partes escondidas da consciência. Travesso poeta no arame, tirando polaroides de um tsunami. A boneca de Pandora gira na superfície espelhada que abre e fecha a caixinha de som com manivela. Há uma névoa que desvela e vela o que pode ser mal dito.

Jukebox from Hell é o território dos riffs. Bravura indômita. Recado imediato, claro, cristalino. Sem meias frescuras. Power banda que remete ao tempo dos homens cabeludos. Com efeitos na guitarra de Yan Ferreira, o baixo potente de Pê Ribeiro e a bateria de Thiago Jacobson, que faz questão de ter uma voz. Não chega a ser a conjuração de uma horda rebelde, prestes a tomar a cidade de assalto. Destemperado pede canecões de chope ao cair da tarde. Os clichês são triturados e remodelados em homenagens à pátria do rock. O trio e seguidores erguem tributos reconhecíveis e bem vindos no altar onde arde a chama da eterna juventude. Enquanto formos capazes de sentir aquele arrepio na alma com um solo inflamado que parece não ter fim.

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Como arrumar um trabalho maneiro

Eu trabalhei nas Lojas Americanas. Aliás, meu primeiro emprego em Goiânia foi de assistente de tesouraria, numa empresa de limpeza e vigilância. Não poderia haver exemplo mais gritante de pessoa errada no lugar errado. Por isso, fiquei pouco tempo.

O primeiro emprego da minha vida, diga-se de passagem, foi de atendente no balcão de uma padaria. Levantava de madrugada para abrir as portas com a rapaziada e preparar o ambiente para os primeiros clientes. Também não durou muito. Era chato pra caramba.

Meu segundo emprego foi numa fabriqueta de sacos de dormir. Não lembro o que eu fazia. Nada importante, com certeza. Mas lembro do relógio de ponto. Trauma. Era antigo. Você tinha que colocar uma cartela nele e puxar uma alavanca. Ele fazia um barulho dos diabos e perfurava a cartela, que era devolvida para um quadro na parede.

Como eu detestava aquele relógio de ponto. O modelo me persegue. Atualizado, ele cospe um cupom, depois que você coloca a digital para leitura onde, antes, entrava a cartela. O propósito é o mesmo. Registrar seu horário de entrada e saída. Embaraçoso. Odeio relógios de ponto. Prefiro um relógio de vírgulas, mais engenhoso. Vou inventar.

Da fabriqueta, passei para o escritório de uma oficina de bombas injetoras. Moleque, tinha talento para arrumar empregos ruins. Sabe como é, dava meus pulos para ajudar em casa. Eu não gostava daqueles lugares. Mas ainda não sabia o que eu queria fazer na vida. Então, qualquer lugar era uma experiência válida, com um salário no final do mês.

Fui ‘maloteiro’ numa transportadora de remédios. Não entenda mal. Ficava no malote, departamento que recebia e distribuía correspondências, da matriz para as filiais e vice-versa. Meu chefe era bipolar. Na época, a gente dizia que ele era maníaco-depressivo.

Trabalhei numa estação climatológica, em Tucuruí, no Pará. Os meteorologistas do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia queriam saber se o lago, gerado com o represamento do rio Tocantins, na construção da maior hidrelétrica do Brasil, iria modificar o clima da região. Por isso, montaram a estação, com um monte de aparelhos.

Eles tinham que ser diariamente monitorados. Eu e um colega éramos responsáveis por isso. Foi um período maravilhoso. A primeira vez que eu realmente gostei do trabalho. Não tinha ninguém pra ficar no nosso pé e sobrava tempo para ouvir música, ler e escrever. Sim, eu fiz parte de clubes de correspondência que discutiam sobre rock. Mais um assunto para ser comentado em outra ocasião.

E as Lojas Americanas? Lá, fui locutor de ofertas. Pode rir, eu mereço. Sonorizava a loja e anunciava os produtos, além de animar as liquidações. Era até divertido. Depois, comecei finalmente a escrever em jornais e para rádios. Não parei mais, até hoje. Lá se vão bons pares de anos. Agora, danou-se. Será que eu me daria bem em outra atividade?

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Como viajar com Bob Dylan

Fábio e Céline foram lá em casa na sexta-feira. Eu estudei filosofia com o Fábio. Ele estudou filosofia com a Céline. Eu estudei com o Fábio em Goiânia. Ele estudou com a Céline em Paris. O que é muito mais chique. Fábio e Céline são casados. Ela, francesa, veio para o Brasil. Somos vizinhos de bairro. As voltas que o mundo dá.

A gente se encontra por acaso, nas esquinas, aqui e ali. Numa dessas, Fábio me conta que Céline tem uma editora, a Edições Ricochete. Lembro imediatamente do Coelho Ricochete, da Hanna-Barbera. Eu assistia o desenho quando era criança. Fazer o quê?

Ele segue dizendo que o novo livro da Ricochete é a respeito de Bob Dylan. Pronto, estou dentro. Música e literatura são minhas paixões. Um livro que fala de música é um encanto, na certa. Quantas músicas você conhece que falam de livros? Passa pela cabeça a versão que as Mercenárias fizeram dos Provérbios do Inferno, de William Blake.

Quero ler esse livro. Fábio e Céline foram, gentilmente, levar um exemplar lá em casa. Bob Dylan – A Liberdade Que Canta foi escrito por Daniel Lins. O posfácio, A Cena Mundial do Rock, é assinado por Jean-Luc Nancy. Ambos são filósofos. Daniel tem pós-doutorado na França. O cara teve aulas com Claude Lévi-Strauss e Michel Foucault.

Por que um sujeito que revira teorias do avesso teria se dedicado a um ídolo da música pop? O que alhos têm a ver com bugalhos? Calma aí, garotão. Lembre-se que Bob Dylan é Nobel de Literatura. Já leu Tarântula, do criador de Like a Rolling Stone?

O livro do Daniel é um catatau de mais de 500 páginas. Estou no começo. Esquentando os motores. Ali pela página 60. Mas a leitura é rápida. Dinâmica. Como quiser chamar. O Daniel incorporou o espírito dylaniano. Não se trata, em absoluto, de um texto hermético e difícil. Daqueles que te obrigam a reler cada frase como um enigma.

Também não se trata de uma biografia do cantor de voz fanhosa. Daniel enfatiza que se trata de um Ensaio. Mas ele parte da infância de Robert Allen Zimmerman. Passa pela sua adolescência. E, até o momento, de como ele cruzou pela faculdade. Tudo num crescendo de invenção e maluquice. Na onda libertária do movimento hippie.

Falando em encruzilhadas, Daniel mistura referências eruditas e populares. Autores e influências vividas pelos caminhos. De Nietzsche a Manoel de Barros. De caroneiros beat a poetas de outras paisagens. O caldo efervescente é lúcido e caduco ao mesmo tempo. Como cabe a quem se presta a escrever como se estivesse numa rodovia extensa.

Bob Dylan – A Liberdade Que Canta custa 78 reais. Pode ser comprado no site da Edições Ricochete. Aliás, é muito melhor comprar por ali. Ajuda os editores. E você fica sabendo de outros títulos que já foram lançados. Incluindo o interessantíssimo Congresso Espiritual dos Ranúnculos, cheio de poesias de Fabrício Clemente.

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Como viver sem o AC/ DC

Malcolm Young morreu. Malcolm Young era irmão de Angus Young. Os dois eram os donos do AC/ DC. Para mim, o AC/ DC morreu. Angus Young pode fechar as portas. Não vale mais a pena. Chega, acabou. Já deu o que tinha que dar. Sinto muito, Angus.

Ou melhor, parabéns, Angus. Parabéns, Malcolm. Obrigado por tudo. Obrigado pelos discos que proporcionaram boa parte da trilha sonora da minha juventude. Vocês são demais. Eu nunca vou esquecer Highway to Hell. O mundo nunca vai esquecer Back in Black. O disco só não vendeu mais do que Thriller, de Michael Jackson, nos anos 1980.

O AC/ DC vem definhando faz tempo. Brian Johnson está com 70 anos. Francamente. Tudo bem, Mick Jagger está com 74 e continua saracoteando. Roger Daltrey e Pete Townshend levaram os fãs à loucura no Brasil, com a energia de quem tem mais de 70.

Mas eles representam o rock do passado, que reverbera no presente, é claro. São pioneiros e desbravadores de primeira linha. Eu não estou, aqui, cuspindo no prato que me serviram com tamanha dedicação. Só que é preciso saber a hora de passar o bastão.

Há uma série de artistas idosos que têm muito o que dizer. Como eu gostaria que David Bowie, Lou Reed e Leonard Cohen ainda estivessem por aqui. Um sussurro deles vale mais do que a gritaria de muita gente. São artistas reflexivos e atentos às nossas mazelas. O AC/ DC, como Kiss e tantos outros, se encontra na seara da curtição.

Nesse terreno, a idade cobra seu preço. Os Young não beberam na fonte da eterna juventude. Angus é um sexagenário que se veste como um guri de escola. É engraçado. Tem uma simbologia de contestação ingênua. Contudo, é irracional fingir que o tempo não passou. A magia do rock pode ser a ilusão de que não perdemos nossos ideais.

Por isso, os caras viram totens. É legal ver que Malcolm e seus comparsas subiam no palco com a mesma roupa que usavam na rua. Produção, no caso deles, é uma explosão aqui, outra acolá. O que importa é a zoeira, a barulheira e o princípio de que estamos nos divertindo juntos. Um papel que eles vêm cumprindo desde metade dos anos 1970.

Sem rasgos de originalidade. Sem mudanças radicais de estilo. Sem concessões aos imperativos da moda. Somos o que somos e, se não gostar, que se dane. Igualzinho ao Motörhead. Lemmy também se foi. Quantos ainda restam desta geração de cascudos?

Hoje, para manter a tradição, é preciso rejeitar os cânones do excesso e cuidar muito bem da saúde. A guitarra pesa no pescoço de Angus. No lugar dele, eu não admitiria ninguém no lugar de Malcolm. A mera ideia de fazer um show sem a presença do companheiro mais fiel seria inconcebível. Lamentavelmente, bandas viraram empresas.

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Como ouvir Belchior de novo

Amelinha gravou 10 músicas de Belchior no disco De Primeira Grandeza. A primeira pergunta é sobre a escolha do repertório. Não deve ter sido fácil pincelar uma dezena de canções de um universo tão representativo. Facilidade seria pegar somente os maiores sucessos. Neste ponto, Amelinha deixou de lado alguns títulos emblemáticos.

A segunda pergunta é uma deselegância. Não parece oportunista a decisão de homenagear Belchior tão cedo? A resposta pode ser um dar de ombros. Deixe que digam, que pensem, que falem. Amelinha explica, no encarte, que Belchior escreveu De Primeira Grandeza para a voz dela.

Nada mais justo que a faixa título puxe o fio da meada do amigo que partiu de maneira prematura. A letra, além do mais, diz: “quando eu estou sob as luzes/ não tenho medo de nada”. Ok, entendido. Passemos à sonoridade.

Ao lado do produtor Thiago Marques Luiz, a cantora optou por um quarteto: Estevan Sincovitz (baixo, guitarra, violão, bandolim), Caio Lopes (bateria), Ricardo Prado (piano, teclados, baixo, acordeon, viola) e Fabá Jimenéz (guitarra, violão).

O encontro no estúdio Canto da Coruja, em Piracicaba, interior de São Paulo, foi breve. Tudo gravado ao vivo em quatro dias de agosto. Sob um clima de blues árido e latejante, do tipo que causa dor. O disco da Amelinha não poupa o ouvinte do contato com sentimentos agudos e ásperos.

“Estou aqui parado olhando o incêndio/ do alto do prédio os rolos de fumaça”, ela canta em Incêndio, que não é das mais conhecidas de Belchior. O trauma do compositor consiste em subverter o cotidiano pelo viés poético do desespero. Como quem faz o alerta constante: “como vocês conseguem levar a vida desse jeito sonâmbulo?”

A voz de Amelinha traduz a maturidade de quem não espera seduzir pelo malabarismo, mas pela contenção da emoção que ameaça transbordar a todo momento. Com que outra espécie de loucura ela poderia bradar, em A Palo Seco, que espera que esse canto torto feito faca corte a carne de vocês? Porque não é simples resistir ao apelo de Mucuripe.

De Primeira Grandeza é um trabalho triste. Pelo desaparecimento de Belchior. Pela resistência de Amelinha, que sempre correu pela raia mais distante. Pelos versos que denotam uma visão utópica da existência. Pelos arranjos que parecem saídos de um filme andarilho e poeirento de Wim Wenders.

Ao mesmo tempo é um disco belo e corajoso. Amelinha confrontou a saudade para nos entregar versões que têm um lugar reservado no cancioneiro de Belchior. Por uma originalidade conceitual que dá unidade ao múltiplo denominador.

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Como ouvir música sentado

Um amigo que trabalha com música me deu uma caixa com CDs. Você deve estar pensando naquelas caixas temáticas que ainda são vendidas por aí, com a obra completa de um artista ou compilações de apresentações ao vivo. Não, calma.

A caixa do meu amigo é uma caixa de papelão com dois palmos de largura, dois de comprimento e um palmo de altura. Foi assim que eu medi. Ela transbordava CDs quando a recebi, estupefato. Imagine minha alegria de menino.

Gosto de ouvir discos gravados em estúdios profissionais em um aparelho de som digno do nome. O que tem lá em casa é bem simples, duas peças e duas caixinhas. Mas é de nobre estirpe. Falta conseguir um toca-discos. Qualquer dia eu chego lá.

Não falo em estúdios profissionais para desvalorizar gravações amadoras ou alternativas. Quando comecei no jornalismo, ouvia demo-tapes de bandas goianas. Para você que não é desse tempo, demo-tapes eram fitas de demonstração. Ou seja, fitas K-7.

Era uma sonoridade rudimentar. O máximo de sofisticação era gravar num estúdio de Brasília. O contratempo não minava o entusiasmo de quem tocava e de quem ouvia. Ambos com a melhor das intenções. Ambos com suas limitações.

Quando me refiro à questão profissional, o contraponto é com a música que se ouve no computador e no celular. Não há de faltar quem esteja disposto a me passar uma reprimenda. Quem disse que não há qualidade na reprodução por esses meios?

Neil Young. O bardo lamenta pela geração do foninho. Neil Young é um pouco mais velho do que eu. Nós aprendemos a ouvir música nos LPs. Depois de tanta evolução, queremos voltar aos LPs. Somos nostálgicos, saudosistas. Chame como quiser.

Acho um absurdo ouvir música no computador, no celular, em pen drives, essas traquitanas. Eu ouço, claro, ocasionalmente. A oportunidade de encontrar shows completos em algumas plataformas é uma bênção. Ao contrário da turma que não tem paciência além dos três minutos de um clipe cheio de imagens picotadas.

Enfim, sou afeito aos discos até segunda ordem. Logo, minha caixa é um parque de diversões. Tem uns 150 CDs nela, pelo menos. Vou ouvir todos eles aos poucos, devagar, quando tiver tempo. Acho que, no fundo, a questão é bem esta.

A falta de tempo para sentar e ouvir um disco do começo ao fim. O que leva as pessoas a ouvir música em qualquer lugar, enquanto realizam outras tarefas. É providencial. Mas a música vira pano de fundo. Algo que nos acompanha sem que prestemos atenção. Um ruído, sem o qual percebemos que falta alguma coisa. Não é mesmo?

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Como se livrar do ciúme

Minha mulher é muito ciumenta. Eu tenho uma teoria. Não vou contar aqui. Não interessa. É particular. Você não acha que eu vou me expor a esse ponto, acha? Mas eu posso dizer que minha mulher é muito ciumenta. Não porque eu tenha aprontado. É a primeira coisa que passa pela cabeça da geral. A questão, definitivamente, não é essa.

Uma vez, conversando com os colegas de trabalho, quando era solteiro, o gaiato mais velho, que fazia pose de experiente, afirmou que era normal trair a mulher. E que eu também trairia quando fosse casado. Preciso agradecer muito esse gaiato. Sem querer, ele inoculou em mim, naquele momento, com a frase infeliz, o antídoto para a traição.

Com uma propensão a não querer repetir os erros da maioria (tema para outra conversa), decidi que jamais cairia nessa mediocridade cotidiana, que rendeu tanto assunto a Nelson Rodrigues. Promessa que mantive na cerimônia de casamento, seguindo o cânone religioso. Promessa que mantenho na vida, sem arrependimento.

Lembra quando Renato Russo cantava, em Há Tempos, que disciplina é liberdade? Eu acho que ele estava certo. Desde que a disciplina seja autodeterminada e não imposta. Se sou eu que decido ser assim, não há nada de errado. Não estou agradando a ninguém que não seja eu mesmo. Se você quer trair quem quer que seja, o problema não é meu.

Não gosto de usar essa palavra na minha vida. Confiar é o contrário de trair. Onde há confiança não há traição. Por isso, eu não tenho ciúme. Também porque sinto preguiça de esquentar a cabeça com problemas falsos. Há tanta coisa melhor para se fazer. Mas a minha mulher é muito ciumenta. Isso, para mim, é um exercício de paciência.

Eu sei que uma crise virá, mais cedo ou mais tarde. Vejo a crise surgindo no horizonte. Aprendi a detectar os sinais. Se eu ficar nervoso, nós discutimos. O que é desagradável. Não suporto essa história de passar o relacionamento a limpo. Então, fico calado e a deixo falando sozinha. O que não é uma solução. Minha mulher gosta muito de falar.

Se tento argumentar, com a maior calma do mundo, a história vira um saco. Se não fiz nada não preciso me explicar. Mas é melhor do que discutir nervoso. Enfim, quem entende as mulheres? Não sei se o ciúme é fruto apodrecido do medo ou sintoma de insegurança. O que eu sei é que atrapalha. Atrasa a parada toda. Perdemos tempo.

É um quebra-molas no meio da rua. Dá pra passar com tranquilidade, diminuindo a velocidade. Às vezes, é um trambolho que provoca um solavanco. Sem cuidado, o desgaste pode ser grande. De repente, o agito desarranja o que estava organizado.

Existe amor sem ciúme? Acho que sim. Minha mulher, pelo jeito, acha que não. Como nada é perfeito, a gente se constrói, todo dia, com as ferramentas que têm às mãos. E, no fundo, garotada, ninguém disse que seria fácil. Mas, vai por mim, vale a pena tentar.

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